sexta-feira, 20 de novembro de 2009

JORNAL Nº.2 "O ESTILHAÇO"


Capa do Jornal nº.2 desenhado pelo Furriel Zuzarte - 1970


10 DE MARÇO DE 1970

Foi hoje exactamente. Neste dia reuniram-se em TORRES NOVAS os primeiros quadros que iriam constituir o "embrião" do B.ART. 2883, vila onde a nossa Unidade Mobilizadora, o GACA 2 está instalada e que era para alguns dos Oficiais e Sargentos ali reunidos uma terra desconhecida. No entanto o início da Escola Preparatória  de Quadros nesse dia, foi o primeiro passo para dentro de poucos dias iniciarmos  uma dura e intensiva instrução, que em breve nos permitiu conhecer principalmente os campos e as estradas em redor de TORRES NOVAS.


A necessidade de conciliar o escaso tempo de 3 semanas,  com a de uma cuidada e indispensável preparação dos quadros, obrigou a que a instrução se revestisse de um carácter resumido, mas em que toda a matéria indispensável à guerra subversiva fosse tocada. Esta instrução foi necessariamente dura e independente das condições atmosféricas. Tornava-se necessário dar aos quadros não só uma preparação física adequada à sua função como ainda fazê-los passar por aquilo que na I.E. iriam ensinar aos soldados e assim, ao fazê-lo, tivessem a plena consciência, por experiência própria, do que nessa segunda fase, passassem a exigir.

 Não foi pedido tal esforço, antes pelo contrário, se criou desde o primeiro dia um forte espírito de corpo, um firme desejo de bem cumprir, um ânimo insuperável e uma preparação física e militar, que permitiram formar posteriormente um verdadeiro Batalhão.


Recordamos assim hoje esse primeiro dia da formação do nosso Batalhão, as 76 horas de dura e profícua instrução de preparação dos quadros e todo um desencadeamento de acções posteriores , a I.E., I.A.O., o embarque, a chegada a Angola, a entrada em Sector e a nossa vida aqui até hoje. Muito ainda falta para chegarmos ao fim da nossa missão. No entanto se todos nós soubermos manter o ESPÍRITO criado nesse dia 10MAR69, muito haverá ainda a esperar da acção do B.ART. 2883, que nesta altura ainda conserva intacto os seus ânimos, energia e disciplina, e ainda tem muito de si para dar, do muito que trabalhou na sua preparação.
Publicado no Jornal nº.2 do "Estilhaço"
Autor
Major Rubi Marques
2º.Comandante do Batalhão 

NA HORA DO REGRESSO

Foi em meados de Janeiro de 1968. Dava início à minha comissão. Lá partiu a coluna com mais um "maçarico" para dar cinema às tropas destacadas no interior. Esse "maçarico" era eu. Foram só 24 horas para percorrer a distância de 100 quilómetros. No "Puto" ninguém acredita. Mas é verdade. A descontração dos velhinhos era de seduzir e eu lá seguia, no meio deles, temerário e sempre com a arma pronta para qualquer eventualidade. Foi a primeira vez que me vi em tais alhadas. O capim quase cobria a picada por onde seguíamos. Era mesmo maçador, mas a coluna lá seguia e, para além das avarias das viaturas, da lama que dificultava a marcha, tudo ia correndo bem. 


Finalmente, um dia depois da partida lá chegamos ao destino. Vi-me rodeado por caras estranhas que me olhavam interrogativas: "quem é este?" "que é que ele vem cá fazer?" "Parece que é o Furriel do cinema". "O quê? Vamos ter cá cinema?". E comecei a dar cinema ao pessoal e a sanzala. Ainda estou a ouvir os miudos; "Furriel há cinema hoje?" "Furriel há firme?" Quando me viam com as bobinas na mão, pulavam, gritavam e alvoraçavam toda a sanzala, anunciando que tinha chegado novo "firme". Podia  ser mau mas era sempre bem aceite.


O tempo foi passando, os meses sucedendo-se uns aos outros. A certa altura o Batalhão mudou. Veio outro. Isto já quando eu tinha 19 meses de comissão. Agora era eu o "velhinho" no meio de tantos "maçaricos". Caras novas a que era preciso habituar-me. Mas como o tempo faz as amizades de novo me vi englobado num bom ambiente com a vantagem de ser o mais antigo.


Apesar dos amigos e da boa camaradagem, 26 meses no mato, no mesmo local, satura. Sempre as mesmas coisas, as mesmas pedras, as mesmas casas.


A hora de regresso chegou. Dentro de dias, um barco deixaria Luanda, levando-me de regresso. Foram vinte e tal meses, dando o meu contributo, dentro da medida do possível, para a distracção dos soldados. 


Regresso com saudades deste "curto-longo" prazo da minha vida. O cinema continuará a distrair os soldados durante o tempo em que a Pátria necessitar deles.


Publicado no Jornal "Estilhaço"-1970
Autor
Fernando Pimenta
Furriel Foto-cine 
              

REFORÇO


Meia noite. Remexe-me no leito.
Pancadas leves na porta

Despertam-me por completo.

" Quém é? ..."

Responde uma voz do exterior:

" Está na hora!"

Levante-me estremunhado

E quase maquinalmente me preparo.

Passados minutos lá estou eu

De vigia, ao meu conhecido posto.

estou eu... mas já não estou.

A minha imaginação levou-me

Para longe, muito longe.

No meu pensamento esvoaçam imagens

Imagens longínquas

Que me assaltam o coração e

O deixam magoado.

Com olhos rasos de água

Vou revivendo cenas do passado.

Como em procissão vão desfilando

Todos os entes queridos.

Vejo a minha mãe, minha doce e terna mãe!

Vejo os meus irmãos, a minha noiva os meus amigos!

Possam envoltos em névoa, a névoa dos meus olhos.

O coração contrai-se-me no peito

Sinto um nó formar-se na garganta!

Não resisto mais e dentro de mim grito-lhes!...

Ao meu apelo desesperado

Responde-me o silêncio...

O silêncio da noite, o silêncio em mim.

Estou só!...

Volto então à realidade, caio em mim:

Lanço um olhar ao relógio.

Passaram-se três horas.

Caminho em direcção a uma porta.

"Truz, Truz..."

"Quem é ?..."

"Está na hora!

Publicado no jornal nº.2 - 1970 "Estilhaço"
Autor,
Fernando Deodato
1º.Cabo Escritúrário

A NOVA LUZ

CONSUMI

MEUS. ERROS VAGABONDOS

NA CERTEZA

DE QUE ALGO IRÁ DAR NOVA CÔR AO HOMEM


APENAS COMPREENDI

O AMOR DO CÃO PELOS HOMENS

APRENDI

QUE TAMBÉM PASSOS DADOS NA NOITE

GERAM LUZ

... BOTAS FERRADAS DE UM SOLDADO ?


PROCUREI

O HOMEM NA LUZ

E A COR DO NOVO HOMEM


E ACORDEI DESLUMBRADO !

O NOVO HOMEM

NÃO ERA BRANCO PRETO AMARELO !

Publicado no Jornal nº.2 do "Estilhaço"-1970
Autor
Vieira Nobre
Furriel Milº./Cart.2560

TALVEZ........
     
- Os que te fazem sofrer talvez não sejam maus.

- Os que não fazem as coisas como tu talvez não sejam loucos.

- Os que não são das tuas ideias políticas talvez não sejam "ralé".

- Os que não discorrem como tu talvez não sejam uns ignorantes.

- Os que te parecem antipáticos talvez sejam boas pessoas.

- Os que têm mais êxito do que tu, talvez o tenham merecido.

- Os que te contradizem talvez tenham razão.

- Os que têm mais dinheiro que tu talvez não sejam ladrões.

Contra capa Jornal nº.2 - 1970


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