sexta-feira, 20 de novembro de 2009

FOTOGRAFIAS E VIDEOS DO LUQUEMBO - ANGOLA

Jorge Adão - Pelotão de Rec.Inf.



Fernando Martins da Silva  - Pelotão Auto













Porta de Armas
Edificio das Secretarias, do Comando, da CCS e do Conselho Administrativo


Quartel Velho


Este armazém era emprestado para a realização das nossas Festas - Avenida principal do Luquembo

Avenida principal do Luquembo
Transporte colectivo de Malanje para o Luquembo e volta
Quando chegamos ao Luquembo para questão da segurança do quartel tivemos que proceder à abertura de abrigo - Nas fotografias 5 condutores - Mesquita, Sousa, Serra, Rui e Fernando

Ginástica para manter a linha - instrutores Capitão Veríssimo e Alferes Alcino 
No acordeão Raul Teixeira, Viola João Magalhães, a trás Albano e Fernando Martins Silva 
Tempo para descansar condutores: Novo, Vicente e Fernando  
Á frente Alcino Barros (o peitaças) a seguir Deodato, Fernando M.Silva,Amaro (bolinhas) e Santinhos, no meio conhecemos a Olímpio P. Domingos e o Vidal (açoriano) 
Vidal, Moreira, Costa e Silva e Fernando M.Silva 

No refeitório lado esquerdo: Joaquim Novo, Costa e Silva, Fernando e Ferrão. direito Celestino C.Silva (Caldas) e o Antunes 
Condutores António Ramos Serra e Fernando Martins da Silva


Malange - Cabo David em transito vindo de Férias na Metrópole - 15-10-1970
Bessa monteiro
Jardim de Malanje - Esposa do Alferes Gato Bonito e Filho 

Álvaro Germano de férias em Malanje 


3 fotografias de Alvaro Germano

1970 - Igreja do Luquembo

1970 - Imagem de Nª.Sª.de Fátima na Igreja do Luquembo

Bessa monteiro
Igreja de Luquembo

Bessa monteiro
Palanca Real




Fernando Martins da Silva com as suas lavadeiras



 fotografias das várias visitas às sanzalas dos pelotões de Reconhecimento de Informação e de Sapadores para realizar trabalho de assistência social e de acção psicológica junto da população nativa

Inauguração do Café Estilhaço em 27/03/1971 - Alferes: Zagalo, Alcino Rodrigues, João Figueiredo, Gato Bonito com o filho, D. Maria Irene (esposa do 2ª.Comamdante Major Rubi Marques) e ao centro 1º.Sargento Edmundo da Costa Borges
Na Inauguração do Café Estilhaço, o nosso 2º.Comandante Major Rubi Marques no uso da palavra, à sua esquerda Major Cardoso de Almeida e esposa D. Maria Luisa, e á sua direita a familia Carvalhais proprietários  do Imóvel    
Oficiais e Sargentos da Companhia de Caçadores nº.2677 com o nosso 2º.Comandante Major de Artª. Rubi Marques, em Sautar.

Dia de Natal de 1970 - Na casa de Comidas do Sr. Alcino (civil) na Avenida principal do Luquembo - pessoal da CCS com o Sr. Alcino, Esposa e Filhas.
Na anhara (represa de água) no Luquembo, Cabos: Cintra, Carvalho,  David, Outrelo e Mendes

Jogo de Futebol entre solteiros e casados

Oficina da Ferragem improvisada
Refeitório no Luquembo -sentados: Ribeiro das Transmissões, David do SPM e o Carpinteiro Ribeirinho , de pé: Enfermeiro Borga Ribeiro
10/06/1971 - Jogo de Futebol em Quirina - Entre a equipa do Comando da CCS e a equipa local (civil)
Constituição da equipa do Comando:Cabo Deodato, Cabo Silva, Cabo João, Cabo David, Sol. Amaro, Fur. Valadares, Fur. Ferreira Pinto, Sol. Ribeiro, Cabo Amaral (guarda Redes), Fur.Pires Galego e 1º.Sargento Rodrigues (capitão da equipa). Suplentes:Fur.Pacheco, Cabo Nunes e Sol.Cipriano.
Quem não se lembra do nosso camarada Miranda ter perdido as estrias da Arma e ter andar com um detector de minas à procura das ditas estrias e não as encontrou.
A história é esta: O Soldado Miranda vindo da Metrópole chegou ao Luquembo para a CCS em 22 de Setembro de 1970, vinha, portanto, muito assustado. Era muito inocente, um autêntico maçarico como se diz na gíria militar e com menos 13 meses de comissão que os restantes camaradas. Ao querer cumprir com seus deveres, foi limpar a sua G3 na bancada existente junto à arrecadação do material de armamento. O colega do lado, que também fazia o mesmo serviço, ao fazer-se muito assustado, disse-lhe: tanto limpaste o cano da arma que já perdeste as estrias!... o rapaz desorientou-se ao ver que não tinha as estrias na arma e foi uma confusão, procurando por todo o lado o dito "objecto" e sem o encontrar. Por fim os militares que alimentaram a brincadeira convenceram-no a ir pedir à arrecadação do material um detector de minas para procurar as estrias e lá foi o nosso amigo Miranda buscar o dito detector mas sem resultados. As estrias não apareceram.
A brincadeira só terminou quando lhe disseram que o próprio cano é que é estriado e não existe hipótese de saírem as estrias.
O Soldado Miranda ficou conhecido pelo "ESTRIAS"
Férias em Malange do Fernando Martins da Silva, Manuel Leitão Bicho e Joaquim Ferreira da Silva (Vizela)
 No Hospital Militar de Luanda - Adelino Moreira, Fernando M. Silva, António S. Pinto e Luis Silva
Férias em Malange do Fernando Martins da Silva e Joaquim de Almeida Amorim

Selecção da CCS
Equipa do Pelotão de Reconhecimento de Informação - Jogo em Quirima
Árvore caída na estrada Luquembo-Quirima dificultando a passagem das viaturas



Jangada na passagem para Capunda
Bessa monteiro
Missa inauguração do novo Quartel - Luquembo


Inauguração do Quartel Novo
1ª.PARTE

Estes filme têm música própria. É conveniente desligar a música de fundo do blog que se encontra na barra amarela em cima do lado direito

2ª.PARTE


JORNAL Nº.1 "O ESTILHAÇO"



Capa do Jornal nº.1 desenhada pelo 1º.Cabo Escriturário Mendes - 1970






PALAVRAS DE ABERTURA

Vai nascer o ESTILHAÇO, o nosso JORNAL. Porquê ESTILHAÇO?

É hábito dizer-se que a arma de ARTILHARIA é o projéctil, a granada, e não o canhão. Nós, então, diremos que é o estilhaço o elemento fundamental de toda a estrutura artilheiro. Com efeito, se os canhões se calculam e se construem em obediência absoluta ao projéctil que devem disparar, os projécteis são tanto mais eficazes e agressivos quanto maior é a sua fragmentação em estilhaços. Daqui se infere a grande importância do estilhaço, dada embora a sua pequenez.

Mas porquê este introito, quando o que se pretende é dar satisfação ao pedido do Director e do Chefe de Redacção do ESTILHAÇO para que escrevamos umas palavras de abertura?

É fácil de responder, soldados do  nosso BATALHÃO. é que vós sois os nossos ESTILHAÇOS, aqueles que, em última análise, rápida, agressiva e contundente mente atacam  o inimigo ou reagem aos seus ataques. Sois pequenos e isoladamente pouco valeis, mas tendes atrás de vós toda uma estrutura capaz de vos congregar e orientar, tais como os estilhaços têm atrás de si o projéctil e o canhão, de modo a que sejais fortes, como acontece. Tudo isto, afinal, serve apenas para repetir que a "A UNIÃO FAZ A FORÇA" e que o espírito de equipa e de cooperação, ou, o que é o mesmo, O ESPÍRITO ARTILHEIRO deve sempre nortear as nossas actividades, de modo a evitarem-se, tanto quanto possível, acções individuais e descoordenadas, em consequência pouco eficazes e até perigosas.

É sabida a enorme importância da Imprensa no campo da informação e da cultura. O nosso ESTILHAÇO é tão pequenino que não tem quaisquer veleidades de ser um órgão informativo ou cultural, para além do ambiente restrito do nosso Batalhão. É modesto e concebido para "uso interno". Por isso mesmo retratará as nossas aspirações, os nossos cuidados, as nossa preocupações e as nossas alegrias. Será veículo, amiudadas vezes, de conselhos que repetem e repisem normas de segurança e outras determinações que nunca devem ser esquecidas. Terá características distractivas, narrando anedotas e factos pitorescos contados pelos próprios que os viveram, porque o nosso JORNAL não será só para "HERCULANOS". Queremos que seja um orgão vivo, pulsante, que seja o nosso "coração" e a nossa "cabeça". Mas que seja de todos, absolutamente de todos. Desejamos que até os "ELÍSIOS" e "MANÉIS", por mais "básicos" que sejam, para eles escrevam, encarregando-se a Redacção de limar as arestas de tais escritos ou narrativas, sem lhes quebrar a originalidade e a graça. Desejamos que todos vós possais dizer que contribuístes, efectivamente, para "O ESTILHAÇO" e que, mais tarde, em vossas casas, entre as "muitas" que vos "aconteceram", possais mostrar às visitas, "encaixilhado" e pendurado na parede, o ESTILHAÇO que prove que também fostes "JORNALISTAS". E desejamos que as nossas Companhias nos enviem tanta "colaboração" que tenhamos de diminuir o período das nossas "Tiragens".

A terminar, fazemos votos para que todos, neste Ano Novo de 1970, desfrutem das maiores felicidades e que continuem, como até aqui, a honrar o nome do NOSSO BATALHÃO que o mesmo é honrar o nome de PORTUGAL.

O COMANDANTE
José Francisco Soares
Ten.Cor.Artª.c/CEM

ORA DIGA-NOS...
A equipa de reportagem de ESTILHAÇO entrevistou vários militares sobre a sua vinda para Angola em comissão de serviço.

Em primeiro lugar contactamos com um 1º.Cabo que muito gentilmente nos respondeu  às seguintes perguntas:
- Amigo, é a primeira vez que está em África?
- Sim esta é realmente a minha primeira vinda ao continente negro.
- E qual foi a sua impressão ao chegar à capital Angolana?
- À primeira vista foi agradável, mas, passados uns dias francamente, começou a desagradar-me um pouco.
- Antes de vir para Bessa como imaginava o local onde nos encontramos?
- Bem, o pior possível, até porque o conceito desta localidade nos meios militares de Luanda, é bastante mau.
- E depois de cá ter chegado?
- A minha opinião anterior mudou bastante apesar de Bessa não ser nenhum paraíso.
- Agora diga-me, do que é que mais gosta cá em Bessa?
- Uma só coisa eu aprecio: a camaradagem, que realmente é muito boa.
- E agora para finalizar o que mais lhe desagrada?
- Bem, se não se importa prefiro não responder.
Em seguida ao dobrarmos uma esquina quase esbarrávamos com um Furriel bastante simpático que, mal lhe propusemos uma entrevistazinha, no seu tom jovial nos respondeu:
- É para já....
Começamos por perguntar-lhe:
- Já alguma vez esteve em Angola?
Sempre com um sorriso aberto, disse-nos:
- Nunca cá vim e espero que esta seja a última vez.
- Quando chegou a Luanda como, ou melhor, qual a sua opinião acerca da cidade?
- Sou sincero ao dizer-lhe que fiquei bastante decepcionado, pois sempre a imaginei uma cidade linda , e a meu ver, beleza, não tem nenhuma. É uma cidade suja, com uma urbanização deficientíssima, enfim, não gosto dela.
- Não querendo pôr termo de comparação, o que pensava de Bessa antes de para cá vir?
- Por aquilo que ouvi em Luanda, sempre julguei que isto por cá fosse um Inferno.
- Quando cá chegou essa impressão manteve-se?
- Nem pensar nisso. Apesar de não ser uma "cidade" formosa, fiquei bastante contente porque pelo menos aquilo que me diziam em Luanda e o mesmo que eu imaginava, é totalmente diferente.
- ora digo-me, cá em Bessa de que gosta mais?
- Além da harmonia em que vivo com os meus camaradas, aprecio estar depois do jantar a ver um filme bom, o que infelizmente é raro.
Não lhe quero tomar mais tempo, mas diga-me só para acabar.
- Há alguma coisa que lhe desagrada?

- Pronto meu caro amigo, obrigado pelas suas palavras.
- Bebe alguma coisa comigo na Cantina?
- Eu como estava com um pouco de calor não me fiz rogado, fiz uma pequena pausa e, lá fui com ele.
Já recomposto do calor, cá retomei de novo as minhas entrevistas, e desta vez foi conciso nas suas respostas.
- Oiça, foi esta a primeira vez que veio a África?
- Sim, nunca cá tinha vindo antes.
- Quando chegou a Luanda gostou da cidade?
- Gostei. Achei-a uma cidade bonita.
- Antes de vir para Bessa fazia alguma ideia de como isto era?
- Não. Mas ao mesmo tempo estava em crer que fosse melhor de que na verdade é.
- Quer dizer então que quando cá chegou ficou decepcionado?
- Sim, isso é verdade.
Apesar da sua decepção, vê alguma coisa que lhe seja agradável?
- Gosto de ver um bom jogo de futebol ao Domingos, para não falar de outras coisas.
- Só mais uma pergunta, pois não quero fazê-lo perder mais tempo.
-  Há muita coisa que lhe desagrada?
- Haver há. Mas, onde é que não há?
E assim findei mais uma entrevista. Para terminar, chegou a vez de outro lº.Cabo que foi muito solicito quando lhe pedi para me responder a um pequeno questionário.
- Para começar , gostava que nos dissesse se alguma vez esteve em Angola?
- Não, esta é a primeira vez.
- Quando desembarcou em Luanda qual a sua impressão da cidade?
- Fiquei encantado com a capital Angolana.
- E manteve essa impressão durante os dias que lá esteve?
- Sim.
- Quando vinha para Bessa, imaginava o que isto era?
- Imaginava que fosse melhor.
- Quando cá chegou ficou triste ao ver o local onde teria que viver largos meses?
- Infelizmente assim foi.
- Apesar de tudo há alguma coisa que o seduza?
- Precisaria de mais tempo para lhe poder responder.
- Muito bem. Fugindo um pouco ao esquema de perguntas que até agora lhe fiz, gostaria que me respondesse a mais duas. Pode ser?
- Com certeza.
- Olhe, já pensou alguma vez na hipótese de se estabelecer em Angola no final da sua comissão?
- É com muito prazer que lhe respondo a esta pergunta. Não só pensei, mas estou decidido. Tenho várias propostas de trabalho, tenho várias pessoas de família em cidades Angolanas e o meu único problema é escolher.
- Parabéns pela sua iniciativa digna de louvar. E já agora para finalizar, apenas gostaria de saber a sua opinião sobre a guerra em que estamos envolvidos?
- Pessoalmente posso dizer-lhe que estou convencido que defendemos uma causa justa, defendemos um património que tem largos séculos e que portanto não pode ser abandonado ao capricho de ganâncias estrangeiras. Antes de cá chegar pensava, como muitos, que Angola fosse o estrangeiro, onde nós não tínhamos nada que nos meter. Mas não, a minha opinião mudou completamente. A presença portuguesa, nota-se em qualquer canto de Angola  e só imensidão das suas riquezas é que nos faz compreender a amabilidade de alguns estrangeiros em relação ao terrorismo.
- Por isso, uma vez mais, repito, estou convencido que defendemos uma causa justa.
A nossa entrevista tinha acabado.
"O Estilhaço" que nos convidou a fazê-la, aqui lhes deixa o que pensam alguns militares do B. Artilharia nº.2883 estacionados em Bessa Monteiro sobre os assuntos que lhes propusemos.
Desejamos os maiores triunfos a "O Estilhaço" para que continue a ser o porta voz dos seus leitores.

Autor: Furriel Foto-cine Fernando Pimenta
Jornal nº.1 do "O Estilhaço" - 1970
             
Nota da redacção          
O estilhaço quer agradecer ao nosso Foto-cine, Furriel Pimenta, a colaboração que lhe deu e os triunfos que lhe deseja. Pimenta terminou no dia 4 de Janeiro o seu tempo de comissão.
Por meio do nosso Jornal, todos os militares do Batalhão de Artilharia nº.2883 que gozaram durante estes 5 meses da sua camaradagem, simpatia e amizade, vem desejar-lhe um feliz regresso e muitas felicidades na vida civil.
QUEM ERA BESSA MONTEIRO
"Estilhaço" referia-se com orgulho a Bessa Monteiro, uma localidade onde tivera o seu aquartelamento no ano de 1969 e 1970. Porém não era muito preciso quando lhe perguntavam quem era Bessa Monteiro.
Não o ignorava, mas a nossa curiosidade ficava muito para além daquilo que ele nos contava.
Invariavelmente respondia-nos:"Bessa Monteiro era um grande homem. Era Tenente do exército português, natural de Vila Real de Trás-os-Montes e, tal como eu, andou por essas regiões, talvés até em tempos mais difíceis, quando não havia aviões nem automóveis, nem, as colunas de reabastecimento lhe faziam chegar os frescos com regularidade de um relógio, nem a medicina tinha ainda remédios para todos os males que nos podem levar desta para melhor.
Assim o seu nome continua em todas as bocas, mesmo daqueles que o mataram e de outros que deles herdaram o ódio a Portugal."
E depois eram sempre as mesmas perguntas, e as mesmas respostas vagas de quem pouco sabe do assunto:
-Quando foi isso?
-Bem, ao certo não sei. Julgo que lá pelos anos vinte.
-E quantos homens tinha ele?
-Julgo que uns vinte. Era um pelotão. Mas brancos seriam mais dois ou três. O resto era tropas de Angola.
-E que idade tinha?
-Não sei . Naquele tempo os tenentes eram muito mais velhos que no meu tempo. Devia rondar pelos cinquenta.
-E que fizeram os assassinos?
-Que haviam de fazer?. Fugirem. Quando eu passei por lá dizia-se que o assassino de Bessa Monteiro, viria mais tarde a morrer em Bessa, em 1966.
-E como era a fortaleza?
-Não sei. Não era de pedra. Julgo que era de tijolo. Hoje só se vêm uns tijolos em ruínas, no local onde dizem ter sido o forte.
E tanta meu Deus, tanta pergunta!..
Até as raparigas, como se se tratasse de um ídolo da canção ou do cinema, lhe perguntavam: " E era casado? E era bonito? Loiro ou moreno? Alto ou baixo? E havia mulheres no forte?"
Pobre "Estilhaço"! Sabia tão pouco para quem tem de descrever um herói... Mas ele não se calava. Lá ia respondendo como podia . E que importava que nem sempre falasse verdade? O herói ficava dentro de nós, tocava nos nossos corações, fazia parte do nosso orgulho por sermos portugueses.
Bessa Monteiro tinha agora um significado para nós, como Silva Porto, Sá da Bandeira, Paiva Couceiro, Artur Paiva e tantas outras terra ligadas aos nossos combatentes.
Era um homem é certo , o melhor do grupo, mas nesse homem nós sentíamos a força de um pequeno forte, mantida e prolongada por outros homens, de que "Estilhaço" era uma molécula, e no qual, cedo ou tarde, os miúdos que então o escutávamos nos havíamos de incluir com orgulho, o mesmo orgulho com que nas guerra, a brincar, todos queríamos ser o Bessa Monteiro e o "Estilhaço".
Publicado Jornal nº.1-1970 do Batalhão
Autor,
Cardoso de Almeida
Major de Artilharia

VAI-TE CARTA

Vai-te carta, vai-te carta
Nas folhas de alecrim,
Vai dizer ao meu amor
Que não se esqueças de mim

Adeus, meu amor, adeus
Até quando Deus quiser
E vê lá nunca te esqueças
Deste que tanto te quer.

Vai-te carta, vai-te carta
Que o correio vai partir
Quem me dera a mim estar
Ao pé daquela que a abrir

E ao fechar esta carta
Fechei o meu coração.
E encerrei tantas saudades
Quantas letras aí vão.

Publicado no jornal nº.1-1970 do Batalhão
Autor,
Darlindo Augusto Pinheiro Duarte
Soldado Sapador

IN MEMORIAM
MORTES DE AMÉRICO RIBEIRO SEQUEIRA E ALBINO SIMÃO 
Simão e Sequeira deixaram-nos para sempre. Eram fortes, robustos. A vida parecia sorrir-lhes uma longevidade, capaz de fazer inveja aos nossos avós. Mas foram apanhados de surpresa. Só assim poderiam ser vencidos.
Deixaram-nos para sempre, sem sequer terem possibilidade de sacrificar os seus 21 anos por algo que o merecesse. Morte inglória, cruel e inútil...anos nossos olhos. Morte tirana e caprichosa que nos deixou petrificados, incapazes de pensar.
A nossa homenagem a Sequeira  e Simão, cuja memória anda connosco. As lágrimas podem secar, mas a lembrança não morre. E com a memória permanece a nossa esperança, aquela esperança que nos vem da Fé."...Fazei-os Senhor passar da morte àquela vida que outrora prometeste a Abraão e à sua posteridade para sempre."
Autor Alferes António Pinheiro - Cart.2560
Publicado no Jornal nº.1

MORTE DE ALFREDO DA SILVA TAVARES/CART.2559
É com tristeza que escrevemos mais esta linha em homenagem aos nossos mortos.
Também o nosso Furriel TAVARES, acabamos de saber, nos deixou para sempre, sucumbindo a uma operação cirúrgica. Paz à sua alma.

O OUTRO
No dia 4 de Agosto passado, entra-te no Vera Cruz. Quando o barco  partiu, -ainda te lembras?- ficaste muito tempo a acenar para terra com o coração partido por um misto de saudade e receio, de algo que nem tu sabes explicar. A teu lado estava "OUTRO" que se esforçava por esconder as lágrimas e que sentia o mesmo que tu. Mas tu não reparaste nele.

No dia 20 estavas no teu destino - isolado com os teus camaradas, a tua  companhia. Uma terra toda ela mistério, florestas imensas e sombrias, túneis de capim nas picadas, tudo isto, junto com as muitas histórias que ouviste contar, a lembrança  dos teus, o isolamento total, fizeram com que passasses uns maus bocados. E foram na verdade maus esses bocados. Mas não reparaste que o "outro" que reprimia as lágrimas no barco a teu lado, sofria mais que tu. Andava triste, bastante isolado. Sofria mais que tu e tu não notaste. 

Os primeiros dias que passaram, foste recebendo notícias dos teus e passaste a dizer-lhes que estavas satisfeito. Não era verdade, mas em parte, não há dúvida que começaste a sentir-te mais à vontade. As cartas que o "outro" recebia não eram tão animadoras como as tuas. E a tristeza que nele se ia acumulando, guardava-a  só para si. Sofria calado e tu não davas por isso. Não o conhecias. Até que um dia tiveste um mau encontro com ele. Desta vez sim, deste pela sua presença. Já nem te lembras como o trataste, mas o que é certo os teus insultos não lhe trouxeram nenhuma consolação. E logo a seguir voltaste a desconhecê-lo. O "outro" sofreu mais um golpe, como se não lhe bastasse o que já tinha. Quando esperava alguém que o ajudasse a levantar-se encontrou antes quem o ajudasse a afundar-se mais.

Mas não é ainda tudo. Há dias respondeu mal a um superior e foi, é claro, merecidamente castigado. Merecidamente? Sim, merecidamente, mas talvez tu sejas mais culpado do que ele. Culpado tu porque tinhas obrigação de o conhecer e não o conheces, melhor, ignora-lo.

E agora que eu te contei tudo isto, até estás com certa curiosidade por saber de quem se trata, como se chama esse "outro". Mas não te direi o seu nome. Até porque ele não se dá só por um nome. Tem muitos nomes. É o "outro". Mas não penses que é inventado. Não é. É real, de carne e osso como tu. Dorme ao teu lado, come ao teu lado, forma ao teu lado, alinha ao teu lado na picada. Talvez ele seja o mau e tu o bom. Pobre bondade a tua se desconheces o teu irmão.... Só te peço que te esforces por descobri-lo. Ele continua na mesma, continua a precisar de ti. Está  à espera que lhe deites a mão. É um camarada teu, um teu irmão.


Publicado no Jornal nº.1/1970 do Batalhão

Autor,
António Morais
Capelão

RECORDANDO GOA...
Uma vez mais

"Quem viu Goa, escusa de ver Lisboa". Eis um adágio popular que define claramente o nível da cultura  e civilização goese, o que é na realidade, a Roma do Oriente...

A União Indiana cobiçou-a sempre, mesmo muito antes da sua independência, e não podia permanecer inactiva enquanto não a possuísse.

O Governo de Nehrú, fortemente influenciado por Krishna Menon, vendo frustrados todos os esforços, tenta invadi-la infringindo normas basilares do Direito Internacional...

A invasão aproxima-se. Reina a tristeza nos rostos do povo  goês, fiel a Portugal sua Pátria querida. As lágrimas não tardarão muito tempo a correr. Tudo está pronto. O General Kandet aguarda a palavra final e decisiva do primeiro ministro indiano : - em frente - , para marchar sobre Goa, com o seu exército de 45.000 homens ,, auxiliado pela força aérea e armada...

É dia 18 de Dezembro. Dia triste mas  inesquecível. É dia de luto para o povo goês e para todo o povo português. O Comandante da Vijhaya Operativo "ouve a palavra em frente" saída da boca de Nehrú e o seu exército marcha imediatamente, sobre o Estado Português da Índia, esmagando o seu povo sem dó nem piedade... Sim, Goa tombou, mas com honra e dignidade. Portugal perdeu a parcela mais bela do seu património. Sem ela a sua história será incompleta.

Passaram oito anos sobre a invasão do Estado Português da Índia, mas a sua fama e celebridade não caiu no olvido. Pelo contrário é cada vez mais recordado com saudades, saudades sem fim.

E precisamente para recordar uma vez mais, vamos dizer algo sobre Goa, pequena na sua extensão territorial, mas grande e rica na sua civilização e mas suas tradições.

Acorre-me, neste momento à memória, por causa da quadra festiva que acabamos de atravessar o modo típico como o goês celebra o Natal na sua terra. Vou tentar apenas dar uma ideia, bastante genérica sobre essa festa tão apreciada em Goa.

"Onde está o Deus dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e vimos adorá-lo" - perguntaram ao rei Herodes os sábios do Oriente.

O povo Goês recorda bem este acontecimento, simbolizado pela estrela, feita de bambu e criada com papel de seda de cores variadíssimas. É difil encontrar uma casa que não esteja iluminada com a estrela, hasteada em frente da casa desde a noite de 24 de Dezembro até à festa dos Reis Magos.

Não é por aqui que ficam os preparativos da festa. O Goês vai mais além procurando simbolizar a própria realidade do nascimento de Deus Salvador por meio do presépio. A imaginação fecunda sobretudo das crianças, dá origem à variedade, no meio da grande quantidade de presépio, feitos com arte, beleza e graciosidade.

E que dizer sobre a árvore de Natal tão falada no Ocidente? Será desconhecida no Oriente? Não em Goa. Também ela tem a sua "árvore" igual ou melhor do que se costuma ver na Europa.

Todos esses preparativos findam impreterívelmente na véspera de Natal, pois a festa para o Goês começa com as MATINAS que têm início às 22 ou 23 horas conforme as Igrejas.

Vestidos de trajes novos e belos e tendo na mão a estrela - a que já nos referimos atrás - todos, tanto os jovens como os velhos, tanto as crianças como as mulheres, dirigem-se à igreja ao menos para participar na missa da meia-noite. Aqueles a quem não foi possível tomar parte activa na festa religiosa, ao ouvir as badaladas do "Glória in excelsis deo" dão largas à sua alegria queimando "foguetes" sem cessar.

Finda a cerimónia religiosa, não acaba a festa. É agora que vai principiar a segunda parte. E principia com "Serenatas" - termo  que não pode ser entendido no seu sentido corrente. Em Goa, a serenata consiste num grupo formado por rapazes e raparigas e ainda crianças tocando e cantando, ao som das guitarras e tambores, canções principalmente da quadra festiva, pelas ruas das cidades e aldeias. É de frisar também que o "grupo" não perde a oportunidade de visitar, pelo menos as casas dos seus componentes, antes do alvorecer - altura em que terminam as serenatas.

Muitos se admirarão por não meter referido ainda à ceia familiar. Essa, sem dúvida, existe também, mas a reunião, pròpriamente dita, da família em volta da mesa tem lugar geralmente ao meio-dia do dia 25 - dia de Natal.

A alegria de que o Goês se apossou, pelo nascimento de Deus-Menino, não acaba com o dia da festa. Perdura pelos dias fora até ao dia da festa dos Reis Magos - dia em que a estrela, colocada na parte principal da casa a simbolizar aquela que conduziu a Belém os sábios do Oriente, vai desaparecer, para reaparecer no próximo Natal.

Públicado "Jornal Estilhaço" Nº. 1-1970
Autor Lourenço Barreto
Alferes Miliciano/Cart. 2561

A PAZ
Peço a paz
e o silêncio

A paz dos frutos
e a música
de suas sementes
abertas ao vento

Peço a paz
e meus pulsos traçam na chuva
um rosto e um pão

Peço a paz
silenciosamente
a paz a madrugada a paz
em cada ovo aberto
aos passos leves da morte

A paz peço
a paz apenas
um sabor a estrelas nos calos das mãos
uma língua sensível à relva do vinho
a paz clara
a paz quotidiana
dos gestos que nos cobrem
de lama e sol

Peço a paz
e o silêncio

Publicado Jornal nº.1-1970 do Batalhão
Autor,
Desconhecido





  
Contracapa do Jornal nº.1 - 1970


JORNAL Nº.2 "O ESTILHAÇO"


Capa do Jornal nº.2 desenhado pelo Furriel Zuzarte - 1970


10 DE MARÇO DE 1970

Foi hoje exactamente. Neste dia reuniram-se em TORRES NOVAS os primeiros quadros que iriam constituir o "embrião" do B.ART. 2883, vila onde a nossa Unidade Mobilizadora, o GACA 2 está instalada e que era para alguns dos Oficiais e Sargentos ali reunidos uma terra desconhecida. No entanto o início da Escola Preparatória  de Quadros nesse dia, foi o primeiro passo para dentro de poucos dias iniciarmos  uma dura e intensiva instrução, que em breve nos permitiu conhecer principalmente os campos e as estradas em redor de TORRES NOVAS.


A necessidade de conciliar o escaso tempo de 3 semanas,  com a de uma cuidada e indispensável preparação dos quadros, obrigou a que a instrução se revestisse de um carácter resumido, mas em que toda a matéria indispensável à guerra subversiva fosse tocada. Esta instrução foi necessariamente dura e independente das condições atmosféricas. Tornava-se necessário dar aos quadros não só uma preparação física adequada à sua função como ainda fazê-los passar por aquilo que na I.E. iriam ensinar aos soldados e assim, ao fazê-lo, tivessem a plena consciência, por experiência própria, do que nessa segunda fase, passassem a exigir.

 Não foi pedido tal esforço, antes pelo contrário, se criou desde o primeiro dia um forte espírito de corpo, um firme desejo de bem cumprir, um ânimo insuperável e uma preparação física e militar, que permitiram formar posteriormente um verdadeiro Batalhão.


Recordamos assim hoje esse primeiro dia da formação do nosso Batalhão, as 76 horas de dura e profícua instrução de preparação dos quadros e todo um desencadeamento de acções posteriores , a I.E., I.A.O., o embarque, a chegada a Angola, a entrada em Sector e a nossa vida aqui até hoje. Muito ainda falta para chegarmos ao fim da nossa missão. No entanto se todos nós soubermos manter o ESPÍRITO criado nesse dia 10MAR69, muito haverá ainda a esperar da acção do B.ART. 2883, que nesta altura ainda conserva intacto os seus ânimos, energia e disciplina, e ainda tem muito de si para dar, do muito que trabalhou na sua preparação.
Publicado no Jornal nº.2 do "Estilhaço"
Autor
Major Rubi Marques
2º.Comandante do Batalhão 

NA HORA DO REGRESSO

Foi em meados de Janeiro de 1968. Dava início à minha comissão. Lá partiu a coluna com mais um "maçarico" para dar cinema às tropas destacadas no interior. Esse "maçarico" era eu. Foram só 24 horas para percorrer a distância de 100 quilómetros. No "Puto" ninguém acredita. Mas é verdade. A descontração dos velhinhos era de seduzir e eu lá seguia, no meio deles, temerário e sempre com a arma pronta para qualquer eventualidade. Foi a primeira vez que me vi em tais alhadas. O capim quase cobria a picada por onde seguíamos. Era mesmo maçador, mas a coluna lá seguia e, para além das avarias das viaturas, da lama que dificultava a marcha, tudo ia correndo bem. 

Finalmente, um dia depois da partida lá chegamos ao destino. Vi-me rodeado por caras estranhas que me olhavam interrogativas: "quem é este?" "que é que ele vem cá fazer?" "Parece que é o Furriel do cinema". "O quê? Vamos ter cá cinema?". E comecei a dar cinema ao pessoal e a sanzala. Ainda estou a ouvir os miudos; "Furriel há cinema hoje?" "Furriel há firme?" Quando me viam com as bobinas na mão, pulavam, gritavam e alvoraçavam toda a sanzala, anunciando que tinha chegado novo "firme". Podia  ser mau mas era sempre bem aceite.


O tempo foi passando, os meses sucedendo-se uns aos outros. A certa altura o Batalhão mudou. Veio outro. Isto já quando eu tinha 19 meses de comissão. Agora era eu o "velhinho" no meio de tantos "maçaricos". Caras novas a que era preciso habituar-me. Mas como o tempo faz as amizades de novo me vi englobado num bom ambiente com a vantagem de ser o mais antigo.


Apesar dos amigos e da boa camaradagem, 26 meses no mato, no mesmo local, satura. Sempre as mesmas coisas, as mesmas pedras, as mesmas casas.


A hora de regresso chegou. Dentro de dias, um barco deixaria Luanda, levando-me de regresso. Foram vinte e tal meses, dando o meu contributo, dentro da medida do possível, para a distracção dos soldados. 


Regresso com saudades deste "curto-longo" prazo da minha vida. O cinema continuará a distrair os soldados durante o tempo em que a Pátria necessitar deles.


Publicado no Jornal "Estilhaço"-1970

Autor
Fernando Pimenta
Furriel Foto-cine 
              

REFORÇO


Meia noite. Remexe-me no leito.
Pancadas leves na porta

Despertam-me por completo.

" Quém é? ..."

Responde uma voz do exterior:

" Está na hora!"

Levante-me estremunhado

E quase maquinalmente me preparo.

Passados minutos lá estou eu

De vigia, ao meu conhecido posto.

estou eu... mas já não estou.

A minha imaginação levou-me

Para longe, muito longe.

No meu pensamento esvoaçam imagens

Imagens longínquas

Que me assaltam o coração e

O deixam magoado.

Com olhos rasos de água

Vou revivendo cenas do passado.

Como em procissão vão desfilando

Todos os entes queridos.

Vejo a minha mãe, minha doce e terna mãe!

Vejo os meus irmãos, a minha noiva os meus amigos!

Possam envoltos em névoa, a névoa dos meus olhos.

O coração contrai-se-me no peito

Sinto um nó formar-se na garganta!

Não resisto mais e dentro de mim grito-lhes!...

Ao meu apelo desesperado

Responde-me o silêncio...

O silêncio da noite, o silêncio em mim.

Estou só!...

Volto então à realidade, caio em mim:

Lanço um olhar ao relógio.

Passaram-se três horas.

Caminho em direcção a uma porta.

"Truz, Truz..."

"Quem é ?..."

"Está na hora!

Publicado no jornal nº.2 - 1970 "Estilhaço"
Autor,
Fernando Deodato
1º.Cabo Escritúrário

A NOVA LUZ

CONSUMI

MEUS. ERROS VAGABONDOS

NA CERTEZA

DE QUE ALGO IRÁ DAR NOVA CÔR AO HOMEM


APENAS COMPREENDI

O AMOR DO CÃO PELOS HOMENS

APRENDI

QUE TAMBÉM PASSOS DADOS NA NOITE

GERAM LUZ

... BOTAS FERRADAS DE UM SOLDADO ?


PROCUREI

O HOMEM NA LUZ

E A COR DO NOVO HOMEM


E ACORDEI DESLUMBRADO !

O NOVO HOMEM

NÃO ERA BRANCO PRETO AMARELO !

Publicado no Jornal nº.2 do "Estilhaço"-1970
Autor
Vieira Nobre
Furriel Milº./Cart.2560

TALVEZ........
     
- Os que te fazem sofrer talvez não sejam maus.

- Os que não fazem as coisas como tu talvez não sejam loucos.

- Os que não são das tuas ideias políticas talvez não sejam "ralé".

- Os que não discorrem como tu talvez não sejam uns ignorantes.

- Os que te parecem antipáticos talvez sejam boas pessoas.

- Os que têm mais êxito do que tu, talvez o tenham merecido.

- Os que te contradizem talvez tenham razão.

- Os que têm mais dinheiro que tu talvez não sejam ladrões.

Contra capa Jornal nº.2 - 1970



JORNAL Nº.3 "O ESTILHAÇO"


Capa do Jornal nº.3 - 1971


NOTA DA REDACÇÃO

Estilhaço nunca gozou de saúde.
A sua delicada constituição só lhe permitiu mostrar-se duas vezes em público.
É então agora, com esta mudança de ares, das matas de Bessa Monteiro para os planaltos luquembistas, infestados de pântanos e mosquitos, quebrado pela saudade da família que deixava lá no norte, atacado pelo paludismo, o pobre do "Estilhaço" ficou muito combalido. De tal maneira que o público o julgava já morto e enterrado.
Mas qual quê? Vieram as chuvas, a natureza rejuvenesceu, começou um ano novo, chegou-lhe aos ouvidos que Baca vinha cá para baixo, e ei-lo de novo espevitado, com vontade de sair à rua, e conhecer os novos membros da família que ele vagamente sabe que moram lá para as bandas mais do sul em locais turísticos, nas margens de rios de águas cristalinas e quedas deslumbrantes.
Saído da convalescença "Estilhaço" saúda esses parentes com carinho e deseja-lhes muitas felicidades para o ano 1971 que já começa a gatinhar. Deseja igualmente felicidades e boas vindas aos "bacanos" que se lhe vieram juntar, pelo que se sente muito feliz. Mas a sua saudação principal vai para os quibalenses e "sessenta e um" que ficaram entre as pacaças das matas Sangas , Loaias e quejandas. A todos um abraço de "Estilhaço". E escrevam e mandem notícias. Será a melhor maneira de lhe darem saúde e ajudá-lo a passar os últimos meses da sua "velhice".



OPERAÇÃO DIABO

Íamos nós muito sossegados da vida, saboreando o fresco da noite e conversando sobre acontecimentos  do dia a dia, quando apareceu a cabra.
Parou o Unimog. Parou a cabra. Parou a nossa conversa.
Ficamos todos a olhar uns para os outros, à espera da primeira reacção, e esta pertenceu à cabra. Desatou a correr, a correr, a dar voltas ao carro, cada vez mais perto, tão perto que ficámos a pensar quanto é que ela se vinha meter debaixo de nós, até que desistiu da ideia e lá partiu para não mais a vermos.
Vai daí grita o Sousa:
Ai nossa Senhora, que isto não é cabra nenhuma! Isto é mas é o diabo! - vocês vão ver, que nos havemos de atascar todos tantas vezes quantas voltas a cobra deu ao carro!
Rimos todos, mas a "Anhara", o quarto inimigo da nossa guerra, é que não largou a sugestão, e passados uns cem metros, zás, estávamos "emboscados".
Reacção enérgica! Heróica mesmo! Uma boa meia hora de luta, puxa daqui, levanta de acolá, até que o Unimog lá conseguiu um aceno de força, e todos nós ficámos a rir do nosso inimigo, isto é, todos menos o Sousa, que voltou com o diabo da cabra baila e nos lembrou que ainda haveria muitos "atascanços", até se completarem as voltas que o bicho deu em volta do carro.
E, palavras não eram ditas, volta o inimigo à carga, redobrado de energias, na razão inversa das nossas depauperadas forças.
E era ver-nos. O Unimog a gritar: "Tiram-me daqui" A "Anhara" gritar: é o tirar!..." E nós a fazer contas à vida e a pensar quantas voltas teria dado o raio da cabra em volta do carro.
Resultado: estávamos mesmo na "zona da morte" da emboscada inimiga.
Dali para fora só com reforços.
E, à falta do tractor do "Bolinhas", foi nomeado o "Bolinhas" sem tractor, para um "patrulhamento ofensivo" até à Sanzala mais próximo. (E mal sabíamos o "Bolinhas" e nós, que o próximo era só quinze quilómetros).
Lá nos despedimos dele e do seu par, como quem se despede de uma filha que vai para o casamento, à espera que ele nos trouxesse herdeiros para continuar a família, que é como quem diz, reforços para continuar a viagem.
Entretanto ficámos  os restantes em socorro do nosso ferido em combate, a tentar prolongar-lhe a vida com "injecções de macaco", ligaduras de troncos de árvore, palmadinhas no motor de arranque e tratamentos do género. E até lhe prometemos um "Unimog fêmea", a ver se ele não se ia abaixo. Mas nem assim. Estava mesmo nas últimas...
Quem não gostou nada da nossa reacção foi a "Anhara".
Se nós pedimos reforços, também ela o fez. E foi ver chegar um exército de mosquitos, também instruídos, tão violentos, que eu só desejava coçar-me e não me esquecer de no dia seguinte tomar dois "daraprins".
Mas as horas passavam-se, as estrelas desapareciam no céu, e de "Bolinhas", nada. Ao romper do dia retiraram os mosquitos com algumas baixas em combate, diga-se em abono da verdade, ficámos a olhar para o nosso pobre Unimog enterrado até ao pescoço, que é como quem diz com o eixo assente no chão, e rodeado de paus por todos os lados, menos por um, que nesse assentavam as rodas.
E do "Bolinhas"... NADA.
Mas tudo tem um fim, mesmo a vitória do nosso inimigo.
Comandando um exército de dezoito milícias, (com um estafeta de bicicleta à frente, não fossemos nós estar mal dispostos) apeados e armados, chega o nosso "Bolinhas".
E até nos esquecemos da noite sem dormir, dos mosquitos sem piedade e do carro sem forças para vencer a "Anhara" porque, a partir de então, até me lembrei das minhas saídas dum Sporting-Benfica: umas vezes no ar, outras com os pés a arrastar pelo chão, só dava por mim quando estava fora do estádio, pois os outros lá se encarregavam de me empurrar para os portões de saída.
E fora do buraco, foi uma festa ver os dezoito milícias a bater palmas a eles mesmo e nós a acompanhá-los com gosto nessa manifestação de alegria.
Que diabo: O caso não era para menos, depois de uma guerra daquelas.
Até o Sousa acabou por rectificar a sua opinião, não negando que a cabra não fosse o diabo, que disso não tinha ele dúvidas, mas concluindo que afinal a praga que ele nos lançara, não era bem o número de "atascanços", mas sim o número de horas que tínhamos sido obrigados a parar na sua companhia, isto é, dos seus servos mosquitos, porque lá o diabo da cabra ou a cabra do diabo, essa tratou mas foi de pôr-se a milhas porque se a apanhávamos outra vez... levava chumbo. Apanhava, apanhava, lá isso "jura mesmo".
Autor,
Cardoso de Almeida
Major de Artª.
            




 Somos velhinhos! Não há duvidas que nos nossos largos meses de Angola já estão carregados de acontecimentos. Não há dúvidas que já começamos a olhar para o passado, para as terras por onde andámos, as picadas que percorremos, os factos mais ou menos importantes que nos ficaram gravados na mente, os momentos agradáveis e difíceis que nos deixaram marcados. Começamos a recordar e o recordar é sinal de velhice. Somos velhinhos!

Costuma ser a velhice sinal de maturidade, bom senso, prudência, respeito e muitas outras virtudes.

Na gíria militar, porém "velhinho" parece significar totalmente o contrário.

Velhinho é aquele que se emancipou de todas as lei e regras militares.
 Velhinho é aquele que sabe lidar com os nativos - fazer o seu contrabando nas sanzalas e olhar para tudo e todos com ar superior.    
Velhinho é aquele que perdeu a vergonha, o que não é mau, mas que se tornou "desavergonhado" o que é péssimo.

Se ser "velhinho" significa isso, não te importes de ser maçarico durante 24 meses.

Mas não, trata de ser "velhinho" no sentido positivo. A tua maior experiência certamente que te ensinou a necessidade de ordem e disciplina, de boa educação e respeito pelos outros. Se os teus sentimentos são nobres, o contacto com as populações só te pode levar a um maior desejo de as servir e ajudar e não de as explorar seja sob que aspecto for. Poderá no fim dizer que SERVISTE, que deste o teu contributo para o progresso dos povos de Angola. E só isto poderá dar verdadeiro orgulho e alegria.
Autor.
António Morais
Tenente Capelão 



Contracapa do Jornal nº.3 - 1971