sexta-feira, 20 de novembro de 2009

JORNAL Nº.1 "O ESTILHAÇO"



Capa do Jornal nº.1 desenhada pelo 1º.Cabo Escriturário Mendes - 1970






PALAVRAS DE ABERTURA

Vai nascer o ESTILHAÇO, o nosso JORNAL. Porquê ESTILHAÇO?

É hábito dizer-se que a arma de ARTILHARIA é o projéctil, a granada, e não o canhão. Nós, então, diremos que é o estilhaço o elemento fundamental de toda a estrutura artilheiro. Com efeito, se os canhões se calculam e se construem em obediência absoluta ao projéctil que devem disparar, os projécteis são tanto mais eficazes e agressivos quanto maior é a sua fragmentação em estilhaços. Daqui se infere a grande importância do estilhaço, dada embora a sua pequenez.

Mas porquê este introito, quando o que se pretende é dar satisfação ao pedido do Director e do Chefe de Redacção do ESTILHAÇO para que escrevamos umas palavras de abertura?

É fácil de responder, soldados do  nosso BATALHÃO. é que vós sois os nossos ESTILHAÇOS, aqueles que, em última análise, rápida, agressiva e contundente mente atacam  o inimigo ou reagem aos seus ataques. Sois pequenos e isoladamente pouco valeis, mas tendes atrás de vós toda uma estrutura capaz de vos congregar e orientar, tais como os estilhaços têm atrás de si o projéctil e o canhão, de modo a que sejais fortes, como acontece. Tudo isto, afinal, serve apenas para repetir que a "A UNIÃO FAZ A FORÇA" e que o espírito de equipa e de cooperação, ou, o que é o mesmo, O ESPÍRITO ARTILHEIRO deve sempre nortear as nossas actividades, de modo a evitarem-se, tanto quanto possível, acções individuais e descoordenadas, em consequência pouco eficazes e até perigosas.

É sabida a enorme importância da Imprensa no campo da informação e da cultura. O nosso ESTILHAÇO é tão pequenino que não tem quaisquer veleidades de ser um órgão informativo ou cultural, para além do ambiente restrito do nosso Batalhão. É modesto e concebido para "uso interno". Por isso mesmo retratará as nossas aspirações, os nossos cuidados, as nossa preocupações e as nossas alegrias. Será veículo, amiudadas vezes, de conselhos que repetem e repisem normas de segurança e outras determinações que nunca devem ser esquecidas. Terá características distractivas, narrando anedotas e factos pitorescos contados pelos próprios que os viveram, porque o nosso JORNAL não será só para "HERCULANOS". Queremos que seja um orgão vivo, pulsante, que seja o nosso "coração" e a nossa "cabeça". Mas que seja de todos, absolutamente de todos. Desejamos que até os "ELÍSIOS" e "MANÉIS", por mais "básicos" que sejam, para eles escrevam, encarregando-se a Redacção de limar as arestas de tais escritos ou narrativas, sem lhes quebrar a originalidade e a graça. Desejamos que todos vós possais dizer que contribuístes, efectivamente, para "O ESTILHAÇO" e que, mais tarde, em vossas casas, entre as "muitas" que vos "aconteceram", possais mostrar às visitas, "encaixilhado" e pendurado na parede, o ESTILHAÇO que prove que também fostes "JORNALISTAS". E desejamos que as nossas Companhias nos enviem tanta "colaboração" que tenhamos de diminuir o período das nossas "Tiragens".

A terminar, fazemos votos para que todos, neste Ano Novo de 1970, desfrutem das maiores felicidades e que continuem, como até aqui, a honrar o nome do NOSSO BATALHÃO que o mesmo é honrar o nome de PORTUGAL.

O COMANDANTE
José Francisco Soares
Ten.Cor.Artª.c/CEM

ORA DIGA-NOS...
A equipa de reportagem de ESTILHAÇO entrevistou vários militares sobre a sua vinda para Angola em comissão de serviço.

Em primeiro lugar contactamos com um 1º.Cabo que muito gentilmente nos respondeu  às seguintes perguntas:
- Amigo, é a primeira vez que está em África?
- Sim esta é realmente a minha primeira vinda ao continente negro.
- E qual foi a sua impressão ao chegar à capital Angolana?
- À primeira vista foi agradável, mas, passados uns dias francamente, começou a desagradar-me um pouco.
- Antes de vir para Bessa como imaginava o local onde nos encontramos?
- Bem, o pior possível, até porque o conceito desta localidade nos meios militares de Luanda, é bastante mau.
- E depois de cá ter chegado?
- A minha opinião anterior mudou bastante apesar de Bessa não ser nenhum paraíso.
- Agora diga-me, do que é que mais gosta cá em Bessa?
- Uma só coisa eu aprecio: a camaradagem, que realmente é muito boa.
- E agora para finalizar o que mais lhe desagrada?
- Bem, se não se importa prefiro não responder.
Em seguida ao dobrarmos uma esquina quase esbarrávamos com um Furriel bastante simpático que, mal lhe propusemos uma entrevistazinha, no seu tom jovial nos respondeu:
- É para já....
Começamos por perguntar-lhe:
- Já alguma vez esteve em Angola?
Sempre com um sorriso aberto, disse-nos:
- Nunca cá vim e espero que esta seja a última vez.
- Quando chegou a Luanda como, ou melhor, qual a sua opinião acerca da cidade?
- Sou sincero ao dizer-lhe que fiquei bastante decepcionado, pois sempre a imaginei uma cidade linda , e a meu ver, beleza, não tem nenhuma. É uma cidade suja, com uma urbanização deficientíssima, enfim, não gosto dela.
- Não querendo pôr termo de comparação, o que pensava de Bessa antes de para cá vir?
- Por aquilo que ouvi em Luanda, sempre julguei que isto por cá fosse um Inferno.
- Quando cá chegou essa impressão manteve-se?
- Nem pensar nisso. Apesar de não ser uma "cidade" formosa, fiquei bastante contente porque pelo menos aquilo que me diziam em Luanda e o mesmo que eu imaginava, é totalmente diferente.
- ora digo-me, cá em Bessa de que gosta mais?
- Além da harmonia em que vivo com os meus camaradas, aprecio estar depois do jantar a ver um filme bom, o que infelizmente é raro.
Não lhe quero tomar mais tempo, mas diga-me só para acabar.
- Há alguma coisa que lhe desagrada?

- Pronto meu caro amigo, obrigado pelas suas palavras.
- Bebe alguma coisa comigo na Cantina?
- Eu como estava com um pouco de calor não me fiz rogado, fiz uma pequena pausa e, lá fui com ele.
Já recomposto do calor, cá retomei de novo as minhas entrevistas, e desta vez foi conciso nas suas respostas.
- Oiça, foi esta a primeira vez que veio a África?
- Sim, nunca cá tinha vindo antes.
- Quando chegou a Luanda gostou da cidade?
- Gostei. Achei-a uma cidade bonita.
- Antes de vir para Bessa fazia alguma ideia de como isto era?
- Não. Mas ao mesmo tempo estava em crer que fosse melhor de que na verdade é.
- Quer dizer então que quando cá chegou ficou decepcionado?
- Sim, isso é verdade.
Apesar da sua decepção, vê alguma coisa que lhe seja agradável?
- Gosto de ver um bom jogo de futebol ao Domingos, para não falar de outras coisas.
- Só mais uma pergunta, pois não quero fazê-lo perder mais tempo.
-  Há muita coisa que lhe desagrada?
- Haver há. Mas, onde é que não há?
E assim findei mais uma entrevista. Para terminar, chegou a vez de outro lº.Cabo que foi muito solicito quando lhe pedi para me responder a um pequeno questionário.
- Para começar , gostava que nos dissesse se alguma vez esteve em Angola?
- Não, esta é a primeira vez.
- Quando desembarcou em Luanda qual a sua impressão da cidade?
- Fiquei encantado com a capital Angolana.
- E manteve essa impressão durante os dias que lá esteve?
- Sim.
- Quando vinha para Bessa, imaginava o que isto era?
- Imaginava que fosse melhor.
- Quando cá chegou ficou triste ao ver o local onde teria que viver largos meses?
- Infelizmente assim foi.
- Apesar de tudo há alguma coisa que o seduza?
- Precisaria de mais tempo para lhe poder responder.
- Muito bem. Fugindo um pouco ao esquema de perguntas que até agora lhe fiz, gostaria que me respondesse a mais duas. Pode ser?
- Com certeza.
- Olhe, já pensou alguma vez na hipótese de se estabelecer em Angola no final da sua comissão?
- É com muito prazer que lhe respondo a esta pergunta. Não só pensei, mas estou decidido. Tenho várias propostas de trabalho, tenho várias pessoas de família em cidades Angolanas e o meu único problema é escolher.
- Parabéns pela sua iniciativa digna de louvar. E já agora para finalizar, apenas gostaria de saber a sua opinião sobre a guerra em que estamos envolvidos?
- Pessoalmente posso dizer-lhe que estou convencido que defendemos uma causa justa, defendemos um património que tem largos séculos e que portanto não pode ser abandonado ao capricho de ganâncias estrangeiras. Antes de cá chegar pensava, como muitos, que Angola fosse o estrangeiro, onde nós não tínhamos nada que nos meter. Mas não, a minha opinião mudou completamente. A presença portuguesa, nota-se em qualquer canto de Angola  e só imensidão das suas riquezas é que nos faz compreender a amabilidade de alguns estrangeiros em relação ao terrorismo.
- Por isso, uma vez mais, repito, estou convencido que defendemos uma causa justa.
A nossa entrevista tinha acabado.
"O Estilhaço" que nos convidou a fazê-la, aqui lhes deixa o que pensam alguns militares do B. Artilharia nº.2883 estacionados em Bessa Monteiro sobre os assuntos que lhes propusemos.
Desejamos os maiores triunfos a "O Estilhaço" para que continue a ser o porta voz dos seus leitores.

Autor: Furriel Foto-cine Fernando Pimenta
Jornal nº.1 do "O Estilhaço" - 1970
             
Nota da redacção          
O estilhaço quer agradecer ao nosso Foto-cine, Furriel Pimenta, a colaboração que lhe deu e os triunfos que lhe deseja. Pimenta terminou no dia 4 de Janeiro o seu tempo de comissão.
Por meio do nosso Jornal, todos os militares do Batalhão de Artilharia nº.2883 que gozaram durante estes 5 meses da sua camaradagem, simpatia e amizade, vem desejar-lhe um feliz regresso e muitas felicidades na vida civil.
QUEM ERA BESSA MONTEIRO
"Estilhaço" referia-se com orgulho a Bessa Monteiro, uma localidade onde tivera o seu aquartelamento no ano de 1969 e 1970. Porém não era muito preciso quando lhe perguntavam quem era Bessa Monteiro.
Não o ignorava, mas a nossa curiosidade ficava muito para além daquilo que ele nos contava.
Invariavelmente respondia-nos:"Bessa Monteiro era um grande homem. Era Tenente do exército português, natural de Vila Real de Trás-os-Montes e, tal como eu, andou por essas regiões, talvés até em tempos mais difíceis, quando não havia aviões nem automóveis, nem, as colunas de reabastecimento lhe faziam chegar os frescos com regularidade de um relógio, nem a medicina tinha ainda remédios para todos os males que nos podem levar desta para melhor.
Assim o seu nome continua em todas as bocas, mesmo daqueles que o mataram e de outros que deles herdaram o ódio a Portugal."
E depois eram sempre as mesmas perguntas, e as mesmas respostas vagas de quem pouco sabe do assunto:
-Quando foi isso?
-Bem, ao certo não sei. Julgo que lá pelos anos vinte.
-E quantos homens tinha ele?
-Julgo que uns vinte. Era um pelotão. Mas brancos seriam mais dois ou três. O resto era tropas de Angola.
-E que idade tinha?
-Não sei . Naquele tempo os tenentes eram muito mais velhos que no meu tempo. Devia rondar pelos cinquenta.
-E que fizeram os assassinos?
-Que haviam de fazer?. Fugirem. Quando eu passei por lá dizia-se que o assassino de Bessa Monteiro, viria mais tarde a morrer em Bessa, em 1966.
-E como era a fortaleza?
-Não sei. Não era de pedra. Julgo que era de tijolo. Hoje só se vêm uns tijolos em ruínas, no local onde dizem ter sido o forte.
E tanta meu Deus, tanta pergunta!..
Até as raparigas, como se se tratasse de um ídolo da canção ou do cinema, lhe perguntavam: " E era casado? E era bonito? Loiro ou moreno? Alto ou baixo? E havia mulheres no forte?"
Pobre "Estilhaço"! Sabia tão pouco para quem tem de descrever um herói... Mas ele não se calava. Lá ia respondendo como podia . E que importava que nem sempre falasse verdade? O herói ficava dentro de nós, tocava nos nossos corações, fazia parte do nosso orgulho por sermos portugueses.
Bessa Monteiro tinha agora um significado para nós, como Silva Porto, Sá da Bandeira, Paiva Couceiro, Artur Paiva e tantas outras terra ligadas aos nossos combatentes.
Era um homem é certo , o melhor do grupo, mas nesse homem nós sentíamos a força de um pequeno forte, mantida e prolongada por outros homens, de que "Estilhaço" era uma molécula, e no qual, cedo ou tarde, os miúdos que então o escutávamos nos havíamos de incluir com orgulho, o mesmo orgulho com que nas guerra, a brincar, todos queríamos ser o Bessa Monteiro e o "Estilhaço".
Publicado Jornal nº.1-1970 do Batalhão
Autor,
Cardoso de Almeida
Major de Artilharia

VAI-TE CARTA

Vai-te carta, vai-te carta
Nas folhas de alecrim,
Vai dizer ao meu amor
Que não se esqueças de mim

Adeus, meu amor, adeus
Até quando Deus quiser
E vê lá nunca te esqueças
Deste que tanto te quer.

Vai-te carta, vai-te carta
Que o correio vai partir
Quem me dera a mim estar
Ao pé daquela que a abrir

E ao fechar esta carta
Fechei o meu coração.
E encerrei tantas saudades
Quantas letras aí vão.

Publicado no jornal nº.1-1970 do Batalhão
Autor,
Darlindo Augusto Pinheiro Duarte
Soldado Sapador

IN MEMORIAM
MORTES DE AMÉRICO RIBEIRO SEQUEIRA E ALBINO SIMÃO 
Simão e Sequeira deixaram-nos para sempre. Eram fortes, robustos. A vida parecia sorrir-lhes uma longevidade, capaz de fazer inveja aos nossos avós. Mas foram apanhados de surpresa. Só assim poderiam ser vencidos.
Deixaram-nos para sempre, sem sequer terem possibilidade de sacrificar os seus 21 anos por algo que o merecesse. Morte inglória, cruel e inútil...anos nossos olhos. Morte tirana e caprichosa que nos deixou petrificados, incapazes de pensar.
A nossa homenagem a Sequeira  e Simão, cuja memória anda connosco. As lágrimas podem secar, mas a lembrança não morre. E com a memória permanece a nossa esperança, aquela esperança que nos vem da Fé."...Fazei-os Senhor passar da morte àquela vida que outrora prometeste a Abraão e à sua posteridade para sempre."
Autor Alferes António Pinheiro - Cart.2560
Publicado no Jornal nº.1

MORTE DE ALFREDO DA SILVA TAVARES/CART.2559
É com tristeza que escrevemos mais esta linha em homenagem aos nossos mortos.
Também o nosso Furriel TAVARES, acabamos de saber, nos deixou para sempre, sucumbindo a uma operação cirúrgica. Paz à sua alma.

O OUTRO
No dia 4 de Agosto passado, entra-te no Vera Cruz. Quando o barco  partiu, -ainda te lembras?- ficaste muito tempo a acenar para terra com o coração partido por um misto de saudade e receio, de algo que nem tu sabes explicar. A teu lado estava "OUTRO" que se esforçava por esconder as lágrimas e que sentia o mesmo que tu. Mas tu não reparaste nele.

No dia 20 estavas no teu destino - isolado com os teus camaradas, a tua  companhia. Uma terra toda ela mistério, florestas imensas e sombrias, túneis de capim nas picadas, tudo isto, junto com as muitas histórias que ouviste contar, a lembrança  dos teus, o isolamento total, fizeram com que passasses uns maus bocados. E foram na verdade maus esses bocados. Mas não reparaste que o "outro" que reprimia as lágrimas no barco a teu lado, sofria mais que tu. Andava triste, bastante isolado. Sofria mais que tu e tu não notaste. 

Os primeiros dias que passaram, foste recebendo notícias dos teus e passaste a dizer-lhes que estavas satisfeito. Não era verdade, mas em parte, não há dúvida que começaste a sentir-te mais à vontade. As cartas que o "outro" recebia não eram tão animadoras como as tuas. E a tristeza que nele se ia acumulando, guardava-a  só para si. Sofria calado e tu não davas por isso. Não o conhecias. Até que um dia tiveste um mau encontro com ele. Desta vez sim, deste pela sua presença. Já nem te lembras como o trataste, mas o que é certo os teus insultos não lhe trouxeram nenhuma consolação. E logo a seguir voltaste a desconhecê-lo. O "outro" sofreu mais um golpe, como se não lhe bastasse o que já tinha. Quando esperava alguém que o ajudasse a levantar-se encontrou antes quem o ajudasse a afundar-se mais.

Mas não é ainda tudo. Há dias respondeu mal a um superior e foi, é claro, merecidamente castigado. Merecidamente? Sim, merecidamente, mas talvez tu sejas mais culpado do que ele. Culpado tu porque tinhas obrigação de o conhecer e não o conheces, melhor, ignora-lo.

E agora que eu te contei tudo isto, até estás com certa curiosidade por saber de quem se trata, como se chama esse "outro". Mas não te direi o seu nome. Até porque ele não se dá só por um nome. Tem muitos nomes. É o "outro". Mas não penses que é inventado. Não é. É real, de carne e osso como tu. Dorme ao teu lado, come ao teu lado, forma ao teu lado, alinha ao teu lado na picada. Talvez ele seja o mau e tu o bom. Pobre bondade a tua se desconheces o teu irmão.... Só te peço que te esforces por descobri-lo. Ele continua na mesma, continua a precisar de ti. Está  à espera que lhe deites a mão. É um camarada teu, um teu irmão.


Publicado no Jornal nº.1/1970 do Batalhão

Autor,
António Morais
Capelão

RECORDANDO GOA...
Uma vez mais

"Quem viu Goa, escusa de ver Lisboa". Eis um adágio popular que define claramente o nível da cultura  e civilização goese, o que é na realidade, a Roma do Oriente...

A União Indiana cobiçou-a sempre, mesmo muito antes da sua independência, e não podia permanecer inactiva enquanto não a possuísse.

O Governo de Nehrú, fortemente influenciado por Krishna Menon, vendo frustrados todos os esforços, tenta invadi-la infringindo normas basilares do Direito Internacional...

A invasão aproxima-se. Reina a tristeza nos rostos do povo  goês, fiel a Portugal sua Pátria querida. As lágrimas não tardarão muito tempo a correr. Tudo está pronto. O General Kandet aguarda a palavra final e decisiva do primeiro ministro indiano : - em frente - , para marchar sobre Goa, com o seu exército de 45.000 homens ,, auxiliado pela força aérea e armada...

É dia 18 de Dezembro. Dia triste mas  inesquecível. É dia de luto para o povo goês e para todo o povo português. O Comandante da Vijhaya Operativo "ouve a palavra em frente" saída da boca de Nehrú e o seu exército marcha imediatamente, sobre o Estado Português da Índia, esmagando o seu povo sem dó nem piedade... Sim, Goa tombou, mas com honra e dignidade. Portugal perdeu a parcela mais bela do seu património. Sem ela a sua história será incompleta.

Passaram oito anos sobre a invasão do Estado Português da Índia, mas a sua fama e celebridade não caiu no olvido. Pelo contrário é cada vez mais recordado com saudades, saudades sem fim.

E precisamente para recordar uma vez mais, vamos dizer algo sobre Goa, pequena na sua extensão territorial, mas grande e rica na sua civilização e mas suas tradições.

Acorre-me, neste momento à memória, por causa da quadra festiva que acabamos de atravessar o modo típico como o goês celebra o Natal na sua terra. Vou tentar apenas dar uma ideia, bastante genérica sobre essa festa tão apreciada em Goa.

"Onde está o Deus dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e vimos adorá-lo" - perguntaram ao rei Herodes os sábios do Oriente.

O povo Goês recorda bem este acontecimento, simbolizado pela estrela, feita de bambu e criada com papel de seda de cores variadíssimas. É difil encontrar uma casa que não esteja iluminada com a estrela, hasteada em frente da casa desde a noite de 24 de Dezembro até à festa dos Reis Magos.

Não é por aqui que ficam os preparativos da festa. O Goês vai mais além procurando simbolizar a própria realidade do nascimento de Deus Salvador por meio do presépio. A imaginação fecunda sobretudo das crianças, dá origem à variedade, no meio da grande quantidade de presépio, feitos com arte, beleza e graciosidade.

E que dizer sobre a árvore de Natal tão falada no Ocidente? Será desconhecida no Oriente? Não em Goa. Também ela tem a sua "árvore" igual ou melhor do que se costuma ver na Europa.

Todos esses preparativos findam impreterívelmente na véspera de Natal, pois a festa para o Goês começa com as MATINAS que têm início às 22 ou 23 horas conforme as Igrejas.

Vestidos de trajes novos e belos e tendo na mão a estrela - a que já nos referimos atrás - todos, tanto os jovens como os velhos, tanto as crianças como as mulheres, dirigem-se à igreja ao menos para participar na missa da meia-noite. Aqueles a quem não foi possível tomar parte activa na festa religiosa, ao ouvir as badaladas do "Glória in excelsis deo" dão largas à sua alegria queimando "foguetes" sem cessar.

Finda a cerimónia religiosa, não acaba a festa. É agora que vai principiar a segunda parte. E principia com "Serenatas" - termo  que não pode ser entendido no seu sentido corrente. Em Goa, a serenata consiste num grupo formado por rapazes e raparigas e ainda crianças tocando e cantando, ao som das guitarras e tambores, canções principalmente da quadra festiva, pelas ruas das cidades e aldeias. É de frisar também que o "grupo" não perde a oportunidade de visitar, pelo menos as casas dos seus componentes, antes do alvorecer - altura em que terminam as serenatas.

Muitos se admirarão por não meter referido ainda à ceia familiar. Essa, sem dúvida, existe também, mas a reunião, pròpriamente dita, da família em volta da mesa tem lugar geralmente ao meio-dia do dia 25 - dia de Natal.

A alegria de que o Goês se apossou, pelo nascimento de Deus-Menino, não acaba com o dia da festa. Perdura pelos dias fora até ao dia da festa dos Reis Magos - dia em que a estrela, colocada na parte principal da casa a simbolizar aquela que conduziu a Belém os sábios do Oriente, vai desaparecer, para reaparecer no próximo Natal.

Públicado "Jornal Estilhaço" Nº. 1-1970
Autor Lourenço Barreto
Alferes Miliciano/Cart. 2561

A PAZ
Peço a paz
e o silêncio

A paz dos frutos
e a música
de suas sementes
abertas ao vento

Peço a paz
e meus pulsos traçam na chuva
um rosto e um pão

Peço a paz
silenciosamente
a paz a madrugada a paz
em cada ovo aberto
aos passos leves da morte

A paz peço
a paz apenas
um sabor a estrelas nos calos das mãos
uma língua sensível à relva do vinho
a paz clara
a paz quotidiana
dos gestos que nos cobrem
de lama e sol

Peço a paz
e o silêncio

Publicado Jornal nº.1-1970 do Batalhão
Autor,
Desconhecido





  
Contracapa do Jornal nº.1 - 1970


JORNAL Nº.2 "O ESTILHAÇO"


Capa do Jornal nº.2 desenhado pelo Furriel Zuzarte - 1970


10 DE MARÇO DE 1970

Foi hoje exactamente. Neste dia reuniram-se em TORRES NOVAS os primeiros quadros que iriam constituir o "embrião" do B.ART. 2883, vila onde a nossa Unidade Mobilizadora, o GACA 2 está instalada e que era para alguns dos Oficiais e Sargentos ali reunidos uma terra desconhecida. No entanto o início da Escola Preparatória  de Quadros nesse dia, foi o primeiro passo para dentro de poucos dias iniciarmos  uma dura e intensiva instrução, que em breve nos permitiu conhecer principalmente os campos e as estradas em redor de TORRES NOVAS.


A necessidade de conciliar o escaso tempo de 3 semanas,  com a de uma cuidada e indispensável preparação dos quadros, obrigou a que a instrução se revestisse de um carácter resumido, mas em que toda a matéria indispensável à guerra subversiva fosse tocada. Esta instrução foi necessariamente dura e independente das condições atmosféricas. Tornava-se necessário dar aos quadros não só uma preparação física adequada à sua função como ainda fazê-los passar por aquilo que na I.E. iriam ensinar aos soldados e assim, ao fazê-lo, tivessem a plena consciência, por experiência própria, do que nessa segunda fase, passassem a exigir.

 Não foi pedido tal esforço, antes pelo contrário, se criou desde o primeiro dia um forte espírito de corpo, um firme desejo de bem cumprir, um ânimo insuperável e uma preparação física e militar, que permitiram formar posteriormente um verdadeiro Batalhão.


Recordamos assim hoje esse primeiro dia da formação do nosso Batalhão, as 76 horas de dura e profícua instrução de preparação dos quadros e todo um desencadeamento de acções posteriores , a I.E., I.A.O., o embarque, a chegada a Angola, a entrada em Sector e a nossa vida aqui até hoje. Muito ainda falta para chegarmos ao fim da nossa missão. No entanto se todos nós soubermos manter o ESPÍRITO criado nesse dia 10MAR69, muito haverá ainda a esperar da acção do B.ART. 2883, que nesta altura ainda conserva intacto os seus ânimos, energia e disciplina, e ainda tem muito de si para dar, do muito que trabalhou na sua preparação.
Publicado no Jornal nº.2 do "Estilhaço"
Autor
Major Rubi Marques
2º.Comandante do Batalhão 

NA HORA DO REGRESSO

Foi em meados de Janeiro de 1968. Dava início à minha comissão. Lá partiu a coluna com mais um "maçarico" para dar cinema às tropas destacadas no interior. Esse "maçarico" era eu. Foram só 24 horas para percorrer a distância de 100 quilómetros. No "Puto" ninguém acredita. Mas é verdade. A descontração dos velhinhos era de seduzir e eu lá seguia, no meio deles, temerário e sempre com a arma pronta para qualquer eventualidade. Foi a primeira vez que me vi em tais alhadas. O capim quase cobria a picada por onde seguíamos. Era mesmo maçador, mas a coluna lá seguia e, para além das avarias das viaturas, da lama que dificultava a marcha, tudo ia correndo bem. 

Finalmente, um dia depois da partida lá chegamos ao destino. Vi-me rodeado por caras estranhas que me olhavam interrogativas: "quem é este?" "que é que ele vem cá fazer?" "Parece que é o Furriel do cinema". "O quê? Vamos ter cá cinema?". E comecei a dar cinema ao pessoal e a sanzala. Ainda estou a ouvir os miudos; "Furriel há cinema hoje?" "Furriel há firme?" Quando me viam com as bobinas na mão, pulavam, gritavam e alvoraçavam toda a sanzala, anunciando que tinha chegado novo "firme". Podia  ser mau mas era sempre bem aceite.


O tempo foi passando, os meses sucedendo-se uns aos outros. A certa altura o Batalhão mudou. Veio outro. Isto já quando eu tinha 19 meses de comissão. Agora era eu o "velhinho" no meio de tantos "maçaricos". Caras novas a que era preciso habituar-me. Mas como o tempo faz as amizades de novo me vi englobado num bom ambiente com a vantagem de ser o mais antigo.


Apesar dos amigos e da boa camaradagem, 26 meses no mato, no mesmo local, satura. Sempre as mesmas coisas, as mesmas pedras, as mesmas casas.


A hora de regresso chegou. Dentro de dias, um barco deixaria Luanda, levando-me de regresso. Foram vinte e tal meses, dando o meu contributo, dentro da medida do possível, para a distracção dos soldados. 


Regresso com saudades deste "curto-longo" prazo da minha vida. O cinema continuará a distrair os soldados durante o tempo em que a Pátria necessitar deles.


Publicado no Jornal "Estilhaço"-1970

Autor
Fernando Pimenta
Furriel Foto-cine 
              

REFORÇO


Meia noite. Remexe-me no leito.
Pancadas leves na porta

Despertam-me por completo.

" Quém é? ..."

Responde uma voz do exterior:

" Está na hora!"

Levante-me estremunhado

E quase maquinalmente me preparo.

Passados minutos lá estou eu

De vigia, ao meu conhecido posto.

estou eu... mas já não estou.

A minha imaginação levou-me

Para longe, muito longe.

No meu pensamento esvoaçam imagens

Imagens longínquas

Que me assaltam o coração e

O deixam magoado.

Com olhos rasos de água

Vou revivendo cenas do passado.

Como em procissão vão desfilando

Todos os entes queridos.

Vejo a minha mãe, minha doce e terna mãe!

Vejo os meus irmãos, a minha noiva os meus amigos!

Possam envoltos em névoa, a névoa dos meus olhos.

O coração contrai-se-me no peito

Sinto um nó formar-se na garganta!

Não resisto mais e dentro de mim grito-lhes!...

Ao meu apelo desesperado

Responde-me o silêncio...

O silêncio da noite, o silêncio em mim.

Estou só!...

Volto então à realidade, caio em mim:

Lanço um olhar ao relógio.

Passaram-se três horas.

Caminho em direcção a uma porta.

"Truz, Truz..."

"Quem é ?..."

"Está na hora!

Publicado no jornal nº.2 - 1970 "Estilhaço"
Autor,
Fernando Deodato
1º.Cabo Escritúrário

A NOVA LUZ

CONSUMI

MEUS. ERROS VAGABONDOS

NA CERTEZA

DE QUE ALGO IRÁ DAR NOVA CÔR AO HOMEM


APENAS COMPREENDI

O AMOR DO CÃO PELOS HOMENS

APRENDI

QUE TAMBÉM PASSOS DADOS NA NOITE

GERAM LUZ

... BOTAS FERRADAS DE UM SOLDADO ?


PROCUREI

O HOMEM NA LUZ

E A COR DO NOVO HOMEM


E ACORDEI DESLUMBRADO !

O NOVO HOMEM

NÃO ERA BRANCO PRETO AMARELO !

Publicado no Jornal nº.2 do "Estilhaço"-1970
Autor
Vieira Nobre
Furriel Milº./Cart.2560

TALVEZ........
     
- Os que te fazem sofrer talvez não sejam maus.

- Os que não fazem as coisas como tu talvez não sejam loucos.

- Os que não são das tuas ideias políticas talvez não sejam "ralé".

- Os que não discorrem como tu talvez não sejam uns ignorantes.

- Os que te parecem antipáticos talvez sejam boas pessoas.

- Os que têm mais êxito do que tu, talvez o tenham merecido.

- Os que te contradizem talvez tenham razão.

- Os que têm mais dinheiro que tu talvez não sejam ladrões.

Contra capa Jornal nº.2 - 1970



JORNAL Nº.3 "O ESTILHAÇO"


Capa do Jornal nº.3 - 1971


NOTA DA REDACÇÃO

Estilhaço nunca gozou de saúde.
A sua delicada constituição só lhe permitiu mostrar-se duas vezes em público.
É então agora, com esta mudança de ares, das matas de Bessa Monteiro para os planaltos luquembistas, infestados de pântanos e mosquitos, quebrado pela saudade da família que deixava lá no norte, atacado pelo paludismo, o pobre do "Estilhaço" ficou muito combalido. De tal maneira que o público o julgava já morto e enterrado.
Mas qual quê? Vieram as chuvas, a natureza rejuvenesceu, começou um ano novo, chegou-lhe aos ouvidos que Baca vinha cá para baixo, e ei-lo de novo espevitado, com vontade de sair à rua, e conhecer os novos membros da família que ele vagamente sabe que moram lá para as bandas mais do sul em locais turísticos, nas margens de rios de águas cristalinas e quedas deslumbrantes.
Saído da convalescença "Estilhaço" saúda esses parentes com carinho e deseja-lhes muitas felicidades para o ano 1971 que já começa a gatinhar. Deseja igualmente felicidades e boas vindas aos "bacanos" que se lhe vieram juntar, pelo que se sente muito feliz. Mas a sua saudação principal vai para os quibalenses e "sessenta e um" que ficaram entre as pacaças das matas Sangas , Loaias e quejandas. A todos um abraço de "Estilhaço". E escrevam e mandem notícias. Será a melhor maneira de lhe darem saúde e ajudá-lo a passar os últimos meses da sua "velhice".



OPERAÇÃO DIABO

Íamos nós muito sossegados da vida, saboreando o fresco da noite e conversando sobre acontecimentos  do dia a dia, quando apareceu a cabra.
Parou o Unimog. Parou a cabra. Parou a nossa conversa.
Ficamos todos a olhar uns para os outros, à espera da primeira reacção, e esta pertenceu à cabra. Desatou a correr, a correr, a dar voltas ao carro, cada vez mais perto, tão perto que ficámos a pensar quanto é que ela se vinha meter debaixo de nós, até que desistiu da ideia e lá partiu para não mais a vermos.
Vai daí grita o Sousa:
Ai nossa Senhora, que isto não é cabra nenhuma! Isto é mas é o diabo! - vocês vão ver, que nos havemos de atascar todos tantas vezes quantas voltas a cobra deu ao carro!
Rimos todos, mas a "Anhara", o quarto inimigo da nossa guerra, é que não largou a sugestão, e passados uns cem metros, zás, estávamos "emboscados".
Reacção enérgica! Heróica mesmo! Uma boa meia hora de luta, puxa daqui, levanta de acolá, até que o Unimog lá conseguiu um aceno de força, e todos nós ficámos a rir do nosso inimigo, isto é, todos menos o Sousa, que voltou com o diabo da cabra baila e nos lembrou que ainda haveria muitos "atascanços", até se completarem as voltas que o bicho deu em volta do carro.
E, palavras não eram ditas, volta o inimigo à carga, redobrado de energias, na razão inversa das nossas depauperadas forças.
E era ver-nos. O Unimog a gritar: "Tiram-me daqui" A "Anhara" gritar: é o tirar!..." E nós a fazer contas à vida e a pensar quantas voltas teria dado o raio da cabra em volta do carro.
Resultado: estávamos mesmo na "zona da morte" da emboscada inimiga.
Dali para fora só com reforços.
E, à falta do tractor do "Bolinhas", foi nomeado o "Bolinhas" sem tractor, para um "patrulhamento ofensivo" até à Sanzala mais próximo. (E mal sabíamos o "Bolinhas" e nós, que o próximo era só quinze quilómetros).
Lá nos despedimos dele e do seu par, como quem se despede de uma filha que vai para o casamento, à espera que ele nos trouxesse herdeiros para continuar a família, que é como quem diz, reforços para continuar a viagem.
Entretanto ficámos  os restantes em socorro do nosso ferido em combate, a tentar prolongar-lhe a vida com "injecções de macaco", ligaduras de troncos de árvore, palmadinhas no motor de arranque e tratamentos do género. E até lhe prometemos um "Unimog fêmea", a ver se ele não se ia abaixo. Mas nem assim. Estava mesmo nas últimas...
Quem não gostou nada da nossa reacção foi a "Anhara".
Se nós pedimos reforços, também ela o fez. E foi ver chegar um exército de mosquitos, também instruídos, tão violentos, que eu só desejava coçar-me e não me esquecer de no dia seguinte tomar dois "daraprins".
Mas as horas passavam-se, as estrelas desapareciam no céu, e de "Bolinhas", nada. Ao romper do dia retiraram os mosquitos com algumas baixas em combate, diga-se em abono da verdade, ficámos a olhar para o nosso pobre Unimog enterrado até ao pescoço, que é como quem diz com o eixo assente no chão, e rodeado de paus por todos os lados, menos por um, que nesse assentavam as rodas.
E do "Bolinhas"... NADA.
Mas tudo tem um fim, mesmo a vitória do nosso inimigo.
Comandando um exército de dezoito milícias, (com um estafeta de bicicleta à frente, não fossemos nós estar mal dispostos) apeados e armados, chega o nosso "Bolinhas".
E até nos esquecemos da noite sem dormir, dos mosquitos sem piedade e do carro sem forças para vencer a "Anhara" porque, a partir de então, até me lembrei das minhas saídas dum Sporting-Benfica: umas vezes no ar, outras com os pés a arrastar pelo chão, só dava por mim quando estava fora do estádio, pois os outros lá se encarregavam de me empurrar para os portões de saída.
E fora do buraco, foi uma festa ver os dezoito milícias a bater palmas a eles mesmo e nós a acompanhá-los com gosto nessa manifestação de alegria.
Que diabo: O caso não era para menos, depois de uma guerra daquelas.
Até o Sousa acabou por rectificar a sua opinião, não negando que a cabra não fosse o diabo, que disso não tinha ele dúvidas, mas concluindo que afinal a praga que ele nos lançara, não era bem o número de "atascanços", mas sim o número de horas que tínhamos sido obrigados a parar na sua companhia, isto é, dos seus servos mosquitos, porque lá o diabo da cabra ou a cabra do diabo, essa tratou mas foi de pôr-se a milhas porque se a apanhávamos outra vez... levava chumbo. Apanhava, apanhava, lá isso "jura mesmo".
Autor,
Cardoso de Almeida
Major de Artª.
            




 Somos velhinhos! Não há duvidas que nos nossos largos meses de Angola já estão carregados de acontecimentos. Não há dúvidas que já começamos a olhar para o passado, para as terras por onde andámos, as picadas que percorremos, os factos mais ou menos importantes que nos ficaram gravados na mente, os momentos agradáveis e difíceis que nos deixaram marcados. Começamos a recordar e o recordar é sinal de velhice. Somos velhinhos!

Costuma ser a velhice sinal de maturidade, bom senso, prudência, respeito e muitas outras virtudes.

Na gíria militar, porém "velhinho" parece significar totalmente o contrário.

Velhinho é aquele que se emancipou de todas as lei e regras militares.
 Velhinho é aquele que sabe lidar com os nativos - fazer o seu contrabando nas sanzalas e olhar para tudo e todos com ar superior.    
Velhinho é aquele que perdeu a vergonha, o que não é mau, mas que se tornou "desavergonhado" o que é péssimo.

Se ser "velhinho" significa isso, não te importes de ser maçarico durante 24 meses.

Mas não, trata de ser "velhinho" no sentido positivo. A tua maior experiência certamente que te ensinou a necessidade de ordem e disciplina, de boa educação e respeito pelos outros. Se os teus sentimentos são nobres, o contacto com as populações só te pode levar a um maior desejo de as servir e ajudar e não de as explorar seja sob que aspecto for. Poderá no fim dizer que SERVISTE, que deste o teu contributo para o progresso dos povos de Angola. E só isto poderá dar verdadeiro orgulho e alegria.
Autor.
António Morais
Tenente Capelão 



Contracapa do Jornal nº.3 - 1971




JORNAL Nº.4 "O ESTILHAÇO"



Capa do Jornal nº.4-1971 "O Estilhaço" elaborada pelo 1º.Cabo Escrit. Mendes 
RECORDANDO MENSAGEM PASCAL

MENSAGEM PASCAL - 1971
Semeou o lavrador um grão de trigo.
Debaixo da terra o sepultou.
Morreu o grão de Trigo enterrado.
Da sua morte um caule germinou.

Morreu o Homem-Deus na cruz pregado.
Como o grão de trigo se perdeu.
E aquilo que era o fim foi o príncipio
Que fez do homem velho
Um homem renovado.

Eterna lei dos homens e das coisas
Que a morte seja o fim
De tudo quanto é belo.
Esperança pascal de todo o universo
Que a morte vencida refloresça
Em trigo flores e aleluias.

publicado no jornal nº.4-1971 do Batalhão
Autor,
Capelão António Morais




CAFÉ ESTILHAÇO
Em 27 de Março de 1971 aconteceu que na Vila do Luquembo foi oficialmente inaugurado um estabelecimento que, pelo seu carácter único na região, pelo o arrojo do empreendimento onde foram investidas algumas centenas de contos, pela sua função insubstituível, pelo centro de reunião social que passa a constituir para a população e, em relação ao pessoal militar, pelas repercussões psicológicas positivas que terá, como local de reunião e distracção, o que, aliado à agradável e harmónica arquitectura que apresenta, o fazem considerar como uma obra que valoriza indiscutìvelmente o Concelho. Trata-se de um CAFÉ, a que o seu proprietário, Sr. Joaquim Carvalhais, comerciante local, querendo homenagear o nosso BART.2883, deu o nome de ESTILHAÇO.
Na cerimónia inaugural, para a qual foram convidados as autoridades Militares e Civis locais, suas famílias, toda a classe de oficiais e famílias presentes, toda a classe de sargentos, representantes das praças e toda a população civilizada do Luquembo, foi servido um agradável e farto jantar volante, em que não faltaram os discursos da praxe, a alegria, a boa disposição, as fotografias e até umas improvisadas variedades finais, pelos militares.
Em nome do Batalhão foram entregues ao Sr. Carvalhais um guião miniatura e uma réplica mural a aguarela desse mesmo guião, que, naquela casa, ficará a lembrar a nossa passagem pelo Luquembo.
O "grito" do Batalhão do Estilhaço que então foi dado em honra ao novo "CAFÉ ESTILHAÇO", foi assim a saudação oficial e agradecimento pela escolha feita pelo seu proprietário, ao qual desejamos os melhores resultados no empreendimento a que arrojadamente meteu ombros e que todos aplaudimos.
Publicado no Jornal nº.4-1971 do Batalhão.
Autor,
Rubi Marques
Major Artª. - 2º.Comandante


Contracapa Jornal nº.4 - 1971

JORNAL Nº.5 "O ESTILHAÇO"





Capa do Jornal nº.5-1971 "O Estilhaço"
VAMOS
CONVERSAR VELHINHOS

 24 meses !
Naquela manhã, estranhamente inovadora, uma angústia interior a minar todo o teu ser, roído de saudades, olhando para aquele pedaço de terra aumentando lentamente de volume.

Era aquilo África?

Nada se coadunava com as versões dos "outros", os que já cá haviam estado, "retratos" cujas imagens conservaras religiosamente, prontos a serem utilizados como guias dos teus primeiros passos !

Tudo te pareceu confuso !

Deparaste com os subúrbios, a "outra" face de uma cidade, os "muceques", mãos que se estendiam para ti.
Mas que tinhas para lhes dar?

Compreensão?
Não, nem isso !!!

Decidiste desprezar o "fácil" das opiniões dos outros e averiguar  por ti o que era a realidade africana.
Vinte e três meses !
Percorreste centenas de quilómetros, grandes cidades, pequenas sanzalas, contactando modos de vida, costumes, desde o teu esforço para essa realidade que vinhas averiguando.

Agora, TENS OPINIÃO !

Respeita-a,  mas.... estás no fim da tua vida militar.
Depois... É esse "depois" a razão desta conversa.
Amigos e Familiares escutarão avidamente as tuas impressões.
Altura para te afirmares como homem lúcido que aqui andou e se recusou a vegetar !
Porás de lado as bazófias, os dramas e as situações que não viveste e serás tu próprio, coerente contigo próprio, verdadeiro !
Tanto tempo, uma ausência tão grande dos teus, poderá levar-te a, nesse "quadro" africano, ainda e sempre incompleto mas do qual foste obreiro, sobressair às tonalidades do "errado" que observaste em detrimento das cores suaves, firmes e amplas do que admiraste.
Para que, os teus familiares e amigos, alguns que num futuro aqui virão como tu, estejam identificados com a realidade africana, não os envolvendo a "confusão" dos teus primeiros passos que agora relembras.
Não esqueças dizer que assististe a uma fase de transição, saída resoluta de um estado tribal para uma vida moderna de uma sociedade em plena industrialização, onde se luta e constroi, onde têm de existir dignidade, respeito mútuo.

Sublinha-o !!!

Tudo isto será a melhor colaboração, o corolário da tua actividade aqui em terras de África, sofrendo e lutando, sublinhando uma vivência como HOMEM !
Desculpa se afinal retratei aquilo que já era a tua maneira de ser, o teu propósito de agir.
Felicidades Velhinho !
Autor,
A.B.Santos Pereira
Fur.Milº.Rec.Inf.









Peitaças é uma figura já familiar a todos os leitores do "Estilhaço". Contudo, há muito estávamos à espera de uma ocasião para melhor o darmos a conhecer. A ocasião surgiu finalmente. Enquanto cortávamos o cabelo fomos ouvindo e registando. Só para elucidação dos eleitores informamos que Peitaças, cujo nome verdadeiro é Alcino de Sá Barros, usa vários pseudónimos dos quais o mais conhecido é "Peitaças". Dá-se também pelo nome de "Barbeiro", "2º.Comandante Interino" além de outros.
Como dizíamos, enquanto a tesoura trabalhava, a língua não parava.
Assim soubemos de um concurso de beleza "Master Luquembo 71", por ele organizado. Viu-se obrigado a recorrer a esta modalidade, ainda pouco em voga, disse-nos, por falta de "misses" na nossa cidade.
Esperamos que as ofendidas o desculpem.
Eis a reportagem que amavelmente nos concedeu:
"Participaram no concurso 25 concorrentes, com a mesa do júri constituída pelas baixas individualidades Luquembistas (todos cambotas). Procedeu-se à passagem dos concorrentes que foram desfilando na passarela com suavidade, encanto e beleza o que arrebatou grandes aplausos, por parte da assistência. Escusado será dizer que o júri, perante tanta beleza, se viu em apuros, na escolha. No entanto achamos certíssima a decisão.
Recaiu ela sobre o nosso conceituado ídolo "Queixadas" que foi eleito "Master Luquembo 71", não só pelas suas qualidades fisionómicas, como também pelo seu físico esbelto e escultural, não esquecendo ainda a grande quantidade de varizes que tanto realçam a elegância das sua pernas. Procedeu-se em seguida à escolha dos "Misters de Honor", acompanharão o primeiro classificado á fase final, que terá lugar em Torres Novas, em data que muita gente queria saber mas.... segredo profissional!... Foram portanto escolhido em segundo lugar Valadares, em parte devido à sua rara beleza, mas sobretudo atendendo àquele nariz, talvez único na Europa. Em terceiro e último lugar classificou-se Santinhos, rapaz jovem, simpático, e elegante.
 Via marítima, em paquete fretado especialmente para o efeito, estas três beldades estarão na fase final em Torres Novas. Sentimos muito, mas quanto à data temos que aguardar segredo"
E enquanto o cabelo ia caindo, os ditos e as anedotas iam-se sucedendo. Contou nos que conheceu uma homem tão coxo, tão coxo que em vez de bengala usava um bengaleiro. E outro ainda que era tão curto de pernas que as peúgas faziam de calças. Veio depois uma anedota que era mais ou menos assim: Um dia cristo mandou os apóstolos fazerem uma penitência que consistia em subir um monte com uma pedra às costas. Judas feito esperto pegou numa pedrita pequena enquanto ao outros levavam cada qual um grande calhau. Quando chegaram ao cimo, os apóstolos disseram ao Senhor que tinham fome. E o Senhor ordenou que as pedras se transformassem em pão. E o pobre Judas viu-se com uma migalha na mão a olhar para as grandes broas dos outros. Na próxima vez subiu o monte com a maior pedra que encontrou. No final , estava muito cansado, cheio de fome e ninguém dizia nada, virou-se para o Senhor e disse: Senhor tenho fome. Então cristo respondeu: Tem calma que hoje trago sandes de queijo para todos.
E o cabelo estava aparadinho sem dar por ela. Assim dá gosto ir ao "Barbeiro". Por isso a todos recomendamos "Barbearia Peitaças".
 - Se tem caspa, seborreia, ou sofre da queda do cabelo, consulte os laboratórios Peitaças, os mais conceituados em produtos capilares.
- Se tem boa apresentação, mas deseja realçar mais a sua beleza, faça no Salão Peitaças lavagem de cabeça, penteados da último moda, cortes de cabelo à "Estilhaço".
Se é careca e não precisa de ir ao barbeiro, mesmo assim faça uma visita ao salão "Peitaças" e descacimbe...                            
     
 
 
 
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SABI QUE...
...No ano de 1970 a Companhia Mineira do Lobito exportou 6.158.253 toneladas de minério?
O mês em que as exportações foram mais baixas foi o de Janeiro com 447.513 toneladas e aquele em que foram mais alto foi o Dezembro com 1.031.096 toneladas.
 
... A produção de petróleo em Angola foi, em 1969, 899.000 toneladas e para o ano corrente está estimada  em mais de 5.000.000 de toneladas.
 
 
 
 
 
 
  
 

Contracapa do Jornal nº.5 "O Estilhaço"






JORNAL ÚLTIMO NÚMERO "O ESTILHAÇO"


Capa do último número do Jornal elaborada pelo 2º.Comandante Major Rubi Marques

RECORDANDO O DISCURSO PRONUNCIADO PELO EXMº.COMANDANTE JOSÉ FRANCISCO SOARES NO DIA 4 DE AGOSTO DE 1971 EM QUE O BATALHÃO COMPLETOU O 2º.ANIVERSÁRIO DA SUA COMISSÃO DE SERVIÇO EM ANGOLA.

"Passa hoje o segundo aniversário do ínicio da Comissão do nosso Batalhão.
As minhas palavras não são dirigidas apenas a vós que me escutais, mas também, e muito especialmente, aos nossos camaradas das CART.2559, 2560 e 2561.
Lembro a vossa chegada a Torres Novas e o ar assustadiço que muitos apresentavam e que, rápidamente, desapareceu.
Lembro a dureza da instrução, e o vos pronto acatamento a essa dureza, dentro do príncipio de que quanto mais duramente instruidos melhor seria a vossa preparação e, em consequência, maiores seriam as possibilidades de terem vantagens sobre o inimigo que se vos deparasse.
Lembro a instrução de aprefeiçoamento operacional em Santa Margarida, onde todo o Batalhão se reuniu e formou um todo coeso e unido por um são e construtivo espírito de corpo.
E nesta nossa fase de vida "metropolitana" lembro, sobre tudo, o vosso esforço, a vossa dedicação e o vosso espírito de disciplina.
Lembro, depois, o embarque em Lisboa e a vossa chegada a Luanda, o desejo de nos livrarmos dos mosquitos do Grafanil e partir para a nossa zona de acção, e, ainda, o ar, verdadeiramente "maçarico", com que enfrentamos a nossa primeira viagem pela "mata" e a nossa chegada ao Subsector de BESSA MONTEIRO.
Veio depois a fase das "luzes" de que todos hoje nos rimos, mas que é uma constante de todos os novatos em zonas como a que nos foi atríbuída.
Lembro a seguir a vossa rápida metamorfose, passado a combatentes conscientes e endurecidos, e lembro mais aqueles maus dias dos ataques às Bases da Junta, que tendo temperado e caldeado as vossa qualidades de ânimo e coragem, muito fizeram sofrer aos que, não sujeitos ao perigo, inteira e intensivamente o sentiram como bons irmãos de armas que fomos.
Veio, depois toda aquela intensa actividade operacional e sentido de segurança e ainda todo aquele interesse em melhorarmos as condições de instalação e de defesa, para nós e para os nossos vindouros, que os classifica a todos como verdadeiros soldados e verdadeiros homens.
Um dia, inesperadamente, veio a notícia do desmembramento do "nosso Batalhão", o que a todos muito desgostou. E assim foi: o Comando e a CCS vieram para o Luquembo, tendo as "nossas Companias" permanecido no Subsector de BESSA. E nesta altura, e em relação à CCS, tive eu, mais uma vez, a oportunidade de apreciar o vosso poder de adaptação e são optimismo, que rápidamente, sucedeu à decepção que todos sentimos.
Vindos de onde tínhamos adquirido perfeito conhecimento do terreno e do inimigo de onde nos sentíamos bem instalados e enraízados pelo hábito, deparou-se-nos o Luquembo com todas a suas deficiências. Foi uma batalha dura que encetámos, logo que aqui chegámos. a da melhoria de instalações.
Tivemos depois o prazer de se nos vir reunir, passados quatro meses da nossa saída de BESSA, a nossa CART.2559 que ficou sediada em NOVA GAIA, dentro do nosso actual subsector.
Embora com o nosso Batalhão dividido, todos demos o melhor do nosso esforço, no sentido do cumprimento integral da missão que nos foi dada, em relação ao nosso Subsector, missão essa que cumprimos com o maior esforço e boa vontade de Companhias que não sendo origináriamente nossas, passaram a ser. Cabe pois aqui uma referência de apreço e sincera gratidão à sempre pronta ajuda e colaboração que nos foi prestada pelas CCAÇ 2459, CCAÇ 2677 e CCAÇ 202.
Estamos hoje aqui, para comemorar o segundo aniversário do "nosso Batalhão", facto que todos se esforçaram para que fosse assinalado pela inauguração do edifício de Comando do novo Aquartelamento, que completa a primeira fase de construção do mesmo.
A todos quantos contribuiram para que esta obra tivesse realização, obra que é muito mais para os que nos vierem render do que para nós, quero eu agradecer, de todo o meu coração.
A todos os Oficiais, Sargentos e Praças, quero eu manifestar o meu maior apreço e gratidão pela conduta que sempre a todos norteou e que foi sempre dirigida no sentido do bom nome e do prestígio do Batalhão.
Neste momento, também sentidamente, lembro e para eles vai a nossa eterna saudade e gratidão, aqueles, dos nossos, que deram a vida pela Pátria e por esta promissora terra de Angola.
Embora possamos dizer que já temos dois anos de comissão, ainda não podemos dizer "Missão Cumprida". Dentro de dois meses, possívelmente, tal poderemos dizer e então teremos toda a satisfação de dever cumprido e do regresso às nossas casas.
Até lá vos peço que continueis a ser os mesmos, com aquela coragem, ânimo, sobriedade, resignação, estoicismo, capacidade de adaptação e sofrimento, de que sempre desteis provas e que fazem do Soldado Português um dos melhores do Mundo.
JOSÉ FRANCISCO SOARES
Ten.Cor. de Artª.c/CGEM
Comandante do B.ARTª.2883 

          
QUANTO VALEM AS NOTICIAS

Estamos no mato, aguarda-se a chegada do pássaro que trará ou não trará uma cartinha ou um aerograma, este último não de tanto agrado talvez por não se saber à primeira vista de quem será, se da pessoa mais querida ou de um camarada a chamar-nos "Maçarico" que o Velhinho" se vai embora. A carta tem mais importância.
Ouve-se o ruído do motor do avião e na Oficina auto o serviço pára por um momento, o bate-chapas pousa o martelo, o condutor pára o motor em experiência e por um momento tudo é silêncio, num de agradecimento ou para se verificar se é ou não o avião. Não há dúvidas. É ele mesmo. Dá duas voltas por cima do aquartelamento e algumas viaturas encaminham-se para a pista. Não faltam voluntários para ajudar a tirar a carga do avião e a seguir levanta voo com destino a outras unidades também levar o tão desejado saco do correio. Todos dizem um Adeus até à próxima.
O correio chegou e começa a juntar-se um grupo à porta da Secretaria, onde lá dentro o Cabo David separa o correio. A atenção de todos vai para a porta sempre à espera de ver o molhinho de cartas e aerogramas entre a mão do distribuidor.
Este aparece e faz soar em voz alta: - CORREIOOO!
Escolhe-se o melhor lugar para a distribuição e muitas vezes em cima do Unimog é feita a distribuição.
A ansiedade de notícias é sentida por todos, eu senti e sei o que está sentindo o meu camarada do lado, até porque na semana passada não tive correio. Desta vez devo ter, mas ainda não fui chamado; será possível? Não! Não pode ser!...
Uma espreitadela e verifica que ainda falta um bom bocado para acabar o molhinho de cartas e aerogramas. Eis que acabou a distribuição e quantas ilusões se vão, não veio nada. Paciência, talvez para a semana tenha mais sorte.
Após isto o grupo divide-se isoladamente, aqueles que tiveram uma mensagem , lêem e relê-em as notícias acabadas de chegar. Para alguns boas notícias e bem se lhes conhece no rosto. Para outros, não são tão favoráveis e a angústia aparece nas suas faces. E quantas vezes ainda com o ânimo e humorismo mandam respostas de conforto aos familiares.
Recordo aquele dia em que o meu camarada e grande amigo veio ao meu encontro, e logo percebi que as coisas não iam bem, pois este sem palavras estendeu-me a carta que acabava de receber. Mesmo antes de ler compreendi o que seria pelo aspecto do meu bom amigo e acabando de ler cheguei à certeza. Aquela a quem ele depositou tanta confiança, a quem achava ser tudo o que lhe podia dar conforto, tudo quanto se se passou para ela foi banal e não soube avaliar o amor daquele que aqui longe em todos os momentos recordava com saudade a sua imagem.
Mas como o seu espírito era fraco e sem valor acabava com tudo secamente, falando ainda do seu novo amor. Eu compreendi o sofrimento do meu camarada, pois é difícil na situação presente receber tal notícia.
Como uma mulher é capaz de descer tão baixo!
Como sincero amigo disse-lhe o que achava como homem. Alguns dias se passaram. Foi um golpe difícil, mas senti alegria quando vi recuperado o seu estado de espírito.
Valoroso o seu procedimento encarando a realidade cruel que a vida lhe trouxe, mas estou certo que ele regressará à sua Terra Natal e será respeitado como bom soldado que foi e como homem de carácter na vida civil.
Para ti camarada que soubeste encarar o teu sofrimento vai a minha admiração e estima, desejando-te as maiores aventuras pela vida fora.
Estou certo que encontrarás a verdadeira esposa que bem mereces.
Para as jovens, (esposas, namoradas, madrinhas de guerra e familiares) que tanto contribuíram com o verdadeiro Amor e Carinho para que os seus rapazes passassem uma comissão com a moral elevada, contribuindo assim para o seu bem estar, o meu muito obrigado.
João Ferreira Almeida
1º.Cabo Rec.Inf.
Publicado no último número do Jornal "Estilhaço" em Setembro de 1971

NOTA DO AUTOR DO BLOGUE
O artigo que se segue foi publicado pelo Sr. Major Rubi Marques, 2º.Comandante do nosso Batalhão no Jornal "Estilhaço" em Setembro de 1971.
Hoje todos nós falamos deste flagelo com preocupação, mas quero acentuar que 41 anos passados já o autor tinha essa preocupação ao escrever o texto, alertando para a necessidade de se tratar urgentemente do nosso planeta, de modo a inverter este flagelo.
Na altura da publicação, estou convencido que a maioria do pessoal militar, leu o texto mas não deu grande atenção ao perigo que representa a poluição.
Concluo agora; que mais de quatro décadas se passaram depois desta publicação, apesar de agora se ter uma consciências maior reconhece-se que pouco ou nada se tem feito neste domínio "mundialmente." claro.
O Autor do Blogue.
Fernando David

A POLUIÇÃO
O FLAGELO DA HUMANIDADE
1. A NATUREZA
A cobertura vegetal terrestre, através dos séculos, enriqueceu a atmosfera - delgado invólucro gasoso que envolve  o nosso planeta - com ar puro, o qual é constituído por uma mistura de gases, essencialmente oxigénio e azoto, na proporção de 21 partes do primeiro para 79 do segundo . O ar contém ainda árgon, dióxido de carbono, vapor de água e vestígios dos chamados "gases raros" como o néon, o crípton, o xénon, o hélio e outros, e, finalmente, bactérias, que se acham nas poeiras microscópicas, em suspensão no ar.
Similarmente nas águas (doces e salgadas) há uma suspensão um conjunto de plantas microscópicas, chamadas "plâncton vegetal" ou"fito-plâncton", que produz o oxigénio que há nelas dissolvido. A água contém ainda em solução outros gases e sais e, em suspensão, poeiras e bactérias.
As misturas existentes no ar e na água têm sido conservadas com uma precisão misteriosa, segundo as leis da natureza, pelas plantas, pelos animais e pelas bactérias, que usam e desenvolvem os gases em proporções iguais. Daqui resulta um ciclo fechado e equilibrado, "em que nada se cria, nada se perde e tudo se transforma". 
Como funciona esse ciclo da natureza ? Vejamos dois exemplos:
Os animais terrestres respiram o oxigénio, exalando dióxido de carbono, o qual é absorvido pelas plantas, que por sua vez o utilizam para o seu crescimento e, pelo maravilhoso processo da foto síntese, devolvem o oxigénio à atmosfera. Deste modo é mantido o dedicado equilíbrio do ar.
Os peixes alimentam-se essencialmente de pequenas partículas animais e até vegetais(já acima mencionados) e denominados "plâncton" e respiram o oxigénio dissolvido na água. Com o tempo os peixes morrem. Os micro-organismos (bactérias) contidas na água decompõem o peixe morto em elementos químicos básicos, consumindo neste processo o oxigénio em solução.
O "fito-plâncton", alimentado pelos referidos químicos, produzem oxigénio para os substituir. Por sua vez o "plâncton" de origem animal alimenta-se do "fito-plâncton", o que serve por sua vez de alimento aos peixes e o ciclo recomeça.
Podemos, portanto, concluir já que:
-O oxigénio é essencial para a vida terrestre e marinha.
-Com consequência é indispensável garantir a produção de oxigénio, o que só se consegue se:
- existir na terra vegetação, nomeadamente árvores e portanto florestas;
-existir no mar "fito-plâncton".
Qualquer modificação introduzida artificialmente no ciclo da natureza pelo homem, que se vá alterar a harmonia das proporções existentes dos diferentes elementos que caracterizam o ar e a água, põem em perigo a vida terrestre. 
Tal alteração, em que é aumentada a proporção dos elementos nocivos em relação aos benéficos, toma o nome de poluição. Esta poluição, forçosamente de diversos graus, significa que quando falamos do seu aumento, queremos dizer que diminuem proporcionalmente as possibilidades de vida. 
O grau de poluição é tanto maior quanto mais industrializado for o país, onde, consequentemente, a vida humana está mais ameaçada.     
2. A TERRA
Esta "nave espacial" que se chama o PLANETA TERRA parece imensa - uma gigantesca esfera com cerca de 6.371 km de raio. Mas nós apenas utilizamos uma pequena parte da sua superfície.
Exceptuando formas de vida muito raras, 95% de toda a vida animal concentra-se numa zona entre 90 metros abaixo do nível médio do mar e 2.850 metros de altitude. A zona total da vida possível - a BIOSFERA - situa-se entre cerca de - 10.500 m e +10.500 metros.
Uma grande parte da BIOSFERA é de baixa produtividade: 90% dos oceanos e 30% da Terra, raros de vida,  que se podem considerar desertos.
O restante suporte a actual população terrestre, calculada em 3,6 biliões de habitantes, a qual, mantendo-se o presente  ritmo de crescimento (em cada segundo há 4 nascimentos humanos), atingirá 6 biliões no ano de 2000.

3. O HOMEM
Ao longo da história primitiva o homem conseguiu viver livremente sem problemas de sobrevivência, além dos naturais.
O desenvolvimento da inteligência humana e o seu espírito criador, levou a nossa espécie a atingir uma civilização material muito afastadas das condições naturais de origem. Criando um terrível mundo industrializado e opressor da qualidade humana, que, pelo desprezo que daí resultou em relação à MÃE natureza, que transformou, maltratou, destruiu, abandonou e minimizou, quase querendo impor-se à própria criação, foi lentamente criando o embrião da sua auto-destruição, pela produção indescriminada dos mais variados produtos tóxicos, envenenando e destruindo lentamente os grandes sistemas da natureza - o AR, a TERRA, e a ÁGUA - nos quais está, a passos agigantados a alterar as proporções de origem.

A POLUIÇÃO   
Durante séculos o homem tratou a terra, o mar, e o céu, como se o Planeta, que tem seus próprios sistemas de eliminação de detritos, fossem ilimitados. Mas não são.
Lançou na atmosfera milhões de toneladas de matérias e gases tóxicos, alterando assustadoramente a percentagem destes em relação ao oxigénio, cuja produção diminuiu pela destruição progressiva da vegetação.
Poluiu a maior parte dos rios e dos lagos, destruindo a sua vegetação aquática ou contribuindo de forma alarmante para o seu crescimento, em qualquer das formas diminuiu ou eliminando o oxigénio contido nas águas, ameaçando progressivamente os próprios oceanos.
Destruiu e continua a destruir a cobertura vegetal terrestre quer por efeitos de derrubes para a abertura de espaços habitacionais, industriais e construção de estradas, quer para o aproveitamento de madeiras, sem se preocupar com um correspondente repovoamento florestal que garantisse a produção de oxigénio.
Com o uso de pesticidas afectou a sua cadeia alimentar acumulando no organismo quantidades altamente prejudiciais de elementos que alteram o próprio sistema de metabolismo, como o mercúrio, o chumbo, o DDT e o estrôncio 90.
DAMOS AGORA ALGUNS EXEMPLOS MAIS VULGARES DE POLUIÇÃO   
Quanto ao ar
As causas principais da poluição do ar são os gases dos escapes dos veículos automóveis, e dos fumos e gases produzidos pelas indústrias, pelas centrais térmicas e pelos fogos de todos os tipos.
Os milhões de automóveis, camiões, autocarros, navios e locomotivas diesel existentes que congestionam as estradas e vias férreas e nalguns pontos até os mares, e cujo número aumenta assustadoramente de dia para dia, são os responsáveis por metade da poluição total atmosférica, pelo lançamento, principalmente, de monóxido de carbono, gás altamente venenoso e asfixiante.
Os aviões a jacto se bem que causem ainda menos de 1% da poluição do ar, produzem em contrapartida vapor de água, pela combinação do hidrogénio do seu combustível com o oxigénio do ar.
Os futuros transportes aéreos supersónicos, voando na estratosfera, onde os poluentes tendem a permanecer mais tempo, devido à rarefacção do ar, provocarão sobre o clima terrestre efeitos ainda não perfeitamente determinados, mas forçosamente nocivos.
As queimadas e os fogos, além de destruírem a vegetação, roubam ao solo o azoto, enfraquecendo a sua qualidade produtiva e ao mesmo tempo lançam na atmosfera enormes massas de ar carbónico.
Quanto à água
Os esgotos urbanos, os das fábricas, toda a espécie de detritos e lixos lançados nos rios, ultrapassando em muito a capacidade de transformação das suas águas, transformam-se em poluidores.
O excesso de fertilizantes químicos usados na agricultura (nitratos e fosfatos) ao alcançarem os rios, desenvolvem excessivamente as plantas aquáticas (algas), as quais necessitam de luz solar para viver. Quando, consequentemente, se formam concentrações muito espessas de algas a luz solar não consegue penetrar até às camadas inferiores, do que resulta morrerem as algas nela situadas.
Na decomposição das algas mortas é consumido o oxigénio dissolvido na água, tornando-a assim inabitável para os peixes.
O derrame de milhões de toneladas de ramas de petróleo por ano provocado pelas explorações petrolíferas ou pelo naufrágio de navios-tanques, contém produtos químicos tóxicos que se espalham à superfície da água, matando peixes e aves e tornando impraticáveis as zonas costeiras.
As centrais termo-nucleares, cuja expansão está em todo o mundo a ritmo acelerado, necessitando de enormes massas de águas para o seu arrefecimento, lançando-as posteriormente nos rios a elevada temperatura, modificam as condições ecológicas dos mesmos, provocando a morte dos peixes. Por outro lado os desperdícios radioactivos dessas centrais, constituem um problema para a sua remoção, devido ao seu poder de contaminação.
Os pesticidas de grande efeito remanescente, de que é exemplo o DDT, levados pelos rios, lagos e oceanos, ao serem ingeridos pelos peixes, e na terra pelos animais que constituem a alimentação humana, afectam seriamente o equilíbrio do ser humano, quando deles se alimenta.
Quanto à Terra
A mineração, que atinge em todo o mundo enormes proporções, pelo uso de modernas e potentes maquinarias, origina a devastação total de áreas imensas, que assim passam a constitui autênticos desertos, não só pela destruição da sua vegetação, como pela consequente erosão provocada pelas chuvas.
O constante derrube de árvores já mencionado e os "cortes de madeira" que por toda a parte proliferam, sem o necessário compensador repovoamento florestal, contribuem para eliminar progressivamente da superfície terrestre, o mais importante produtor de oxigénio - a ÁRVORE.
A existência de lixos, principalmente nas grandes cidades, contendo cada vez maior percentagem de objectos não biodeterioráveis (alumínio, plásticos, garrafas, etc.) constituem um tremendo problema de colocação, porque a natureza não os pode transformar por corrosão.
As poeiras radio-activas provenientes das explosões de bombas ou experiências atómicas ou nucleares, poluem igualmente a terra, o ar e água, muito para além do seu próprio poder destruidor directo, provocando efeitos remanescentes de longa duração e terríveis efeitos sobre a própria genética humana.

MEDIDAS EM CURSO
Ao nível mundial, principalmente nos países altamente industrializados, estão sendo tomadas severas medidas e dedicadas enormes verbas para combater a poluição nos seus diversos aspectos e, num mínimo, conseguir não agravar o nosso meio ambiente.
No aspecto de motores, fazem-se árduos estudos e já até em larga utilização, pequenos automóveis eléctricos destinados a substituir  na circulação urbana os congéneres accionados a motor de explosão.
Purificador de fumos das chaminés das fábricas, centrais terciárias depuradoras de esgotos e águas e outras medidas tendentes a minorar a toxidade do ar que respiramos, dos alimentos que comemos e da água que bebemos, estão na ordem do dia.
Em Junho findo, o próprio conselho da OTAN, reuniu em Lisboa, através de um seu organismo especial, se debruçou afincadamente sobre o flagelo da poluição, colocando à frente de alguns assuntos de carácter militar, aquilo que foi chamado de "terceira dimensão", ou seja, a preocupação de cumprir a tarefa de tornar o mundo habitável pelo homem.
CONHECIMENTOS E CONSCIÊNCIA
É preciso no entanto que todo o seu humano tenha consciência de todos estes problemas e cada um, cìvicamente, pode e deve contribuir com o seu esforço pessoal para combater a poluição nos seus mais variados aspectos, contribuindo no mínimo possível para ela.
Restringir o uso de pesticidas e de fertilizantes artificiais ao mínimo, evitando o uso de insecticidas de longo poder remanescente como o terrível DDT, usando quantidades mínimas de detergentes e deixando de encarar os rios, os lagos e os oceanos como um infinito receptáculo para todos os lixos, desperdícios e produtos nocivos criados pela própria mão do homem.
A deterioração do ambiente - ar, água e terra - continuando ao ritmo actual, conduzir-nos-á a um ponto crítico da vida humana à superfície da Terra. Ainda não é tarde para nos esclarecermos.
Quanto mais conhecermos do mundo em que vivemos e dos seus fenómenos, tanto mais habilitados estaremos a contribuir para a sua conservação.
O número de gerações que ainda poderão ter ambiente favorável à vida, depende de nós determiná-lo.
É assim todo um desafio à inteligência e consciência humanas que se lança, no sentido de coordenar por um lado, o progresso tecnológico que é hoje irreversível e o aumento assustador da natalidade (6 biliões de habitantes no ano de 2000 como se disse), com o exíguo espaço habitável da Biosfera que dispomos, e a redução da poluição, por outro. É a sobrevivência da Humanidade que está em jogo; salvemos o nosso Planeta, pois é o único que temos e onde, segundo os conhecimentos actuais, a vida é possível.  
Autor,
Major Rubi Marques
Publicado no Jornal "Estilhaço" em Setembro de 1971.

SAUDAÇÃO CAMARADAS

Velhos e novos, experientes e não experientes, confusos e explícitos, mais ou menos aplicados, profissionais ou não profissionais, todos souberam compenetrar-se do papel a desempenhar. Todos acamaradaram.
Não há duvidas. Por paradoxal que pareça é no serviço militar que mais se desenvolve este espírito e chega-se até ao grau de sincera amizade.
Falou-se, discutiu-se mas aclararam-se pontos que pareciam inicialmente obscuros. Analisaram-se os prós e os contras de uma boa camaradagem.
Sentiu-se necessidade dela para uma boa colaboração e, sem pactos, apercebemos-nos e enveredamos pelo melhor caminho .
Hoje poderemos orgulhar-nos da compreensão mútua que existe no nosso seio. Os mais velhos e os mais jovens toleram as perrices próprias do estado psíquico que se cria nestas circunstâncias e deixamo-nos rir perante problemas pessoais que à prior poderiam parecer graves.
Aproximando-se o final da comissão, é com certa alegria que notamos que se passam os dias mas não deixa de haver já, uma percepção de saudade, ao pensar-se que após dois anos de convivência seguirá cada elemento à sua vida e que com certeza ficarão somente na nossa memória as recordações que pela sensibilidade com que nos tocaram, jamais serão esquecidas.
Acredito que não se sinta ainda essa saudade, tão ávidos nos encontramos para regressar à companhia dos nossos. Mas quem não recordará os bons e maus momentos que passámos durante estes meses e que afinal fazem todos parte da nossa vida no Ultramar?
Regozijo-me por ter pertencido a esta comunidade durante mais de dois anos. Fico satisfeito com os camaradas que me rodearam e oxalá que também tenha sido para vós um bom elemento.
Os bons momentos, a simpatia, a compreensão, o respeito e a consideração fazem com que passe ao esquecimento qualquer acção que pudesse provocar ressentimento.
Ides vós, outros virão, como já outros passaram deixando sempre gratas recordações de boa camaradagem.
Eis o meu abraço!...
Simões Ribeiro
1º.Sargento Artª.
(Publicado no último número do Jornal "Estilhaço" em Setembro de 1971)

DIA DA INSPECÇÃO MILITAR NO BALEIZÃO

Em todo o Alentejo os dias das inspecções são dias de festas para os mancebos.
Não podia fugir à tradição, Baleizão uma das terras mais castiças do Baixo Alentejo.
O programa normal das festas para os rapazes de Baleizão é:
1º.dia: Cinema em Beja;
2º.dia; Boda e baile em Baleizão.
Nas inspecções de 1955 apresentou-se em Beja um mancebo de Baleizão preparado para fingir cego e ficar "livre". Queixou-se ao médico que era cego, não via absolutamente nada. Não porque o médico fosse enganado, mas porque o número de pessoal era superior ao necessário, o mancebo ficou "livre". Á noite à entrada do cinema o médico reconheceu e dirigiu-se a ele e disse-lhe: - "Então ficaste livre porque me disseste que és cego, e agora estás no Cinema?
O mancebo a fingir-se muito perturbado e cego replicou: - "Oh! Senhor Doutor, Então não estou assentado na camioneta para Baleizão?"      
Autor,
desconhecido

ARTE SEM MISTÉRIO

Muita gente imagina que a arte do Serviço de Saúde está ligada a factos misteriosos, cujo conhecimento, seja portanto privilégio de algumas criaturas com poderes sobrenaturais. Puro engano: pode-se aprender facilmente desde que bem ensinada. O nosso curso, único na especialidade em toda a Metrópole, possui esse dom: o de ensinar centenas de truques desde o fazer pensos até às transfusões de sangue, o que requere sobretudo prática. 
Você aprenderá desde o segredo de curar micoses com pomadas próprias, até às injecções de água destilada, injectadas em doentes que em especial sofrem de dores musculares.
Fornecem-nos dezenas de ilustrações, esquemas, conselhos e orientações.
Como amador, por exemplo, você actuará no nosso Posto de Socorros sob a vigilância e os olhares dos nossos enfermeiros profissionais.
Como profissionais é imenso o campo de trabalho e o mais bem pago, pois tem dispensa da formatura da manhã, o que lhe favorece grandes vantagens para o melhor acolhimento dos nossos irmãos de cor.
O nosso curso, além da sua imensa vantagem oferece carteira válida em toda a Província, assistência permanente, material de aprendizagem grátis e ainda um artístico diploma no final do curso.
Aos interessados rogamos a fineza de se dirigirem ao nosso Posto de Socorros algures nesta Província.
Autor,
Joaquim de Almeida Amorim
Soldado Maqueiro       
Contracapa do último Jornal - Setembro de 1971


CAMINHOS DE FERRO DE BENGUELA - ANGOLA 
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